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    Eu vi: Lights Out (Quando as Luzes se Apagam)

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    Quem está por dentro da categoria Terror aqui do blog sabe quanto o cinema do gênero tem me deixado satisfeita, certo? Filmes incríveis já passaram por aqui, como o icônico A Bruxa e Invocação do Mal 2, que não foi nada menos do que um motivo de orgulho pra quem é fã do estilo.

    Infelizmente, não é sempre que a gente se depara com filmes bons assim.

     Lights Out, ou Quando as Luzes se Apagam, teve um começo brilhante. Vocês talvez se lembrem que, em 2013, como parte de um desafio cinematográfico, um curta metragem de pouco menos de 3 minutos intitulado Lights Out viralizou no Youtube. Premiado no ano seguinte, o curta explora de maneira simples e habilidosa um dos medos mais antigos e mais comuns: o escuro, ou o que se esconde nele. Dá só uma olhada:

    A notícia de que James Wan, produtor da franquia Invocação do Mal e os filmes dela originados, seria responsável por transformar este curta brilhante em um legítimo filme de terror para as telonas foi recebida com empolgação – afinal de contas, depois de uma série de sucessos do cinema de terror, parecia certo que qualquer coisa na mão do homem teria um resultado incrível.

    No entanto, o resultado aqui foi o oposto, e Lights Out nada mais é do que uma decepção.

    E aqui eu preciso confessar que fazer essa resenha foi realmente difícil, porque a escolha de roteiro me ofendeu pessoalmente. E eu não vou conseguir explicar o problema para vocês sem contar como o filme termina. Me desculpem por isso, sério, mas é importante.

    O começo do filme é bastante nostálgico, principalmente por manter as características do projeto original. No entanto, o filme é bastante curto, com apenas 1h20min de duração, o que decididamente não são o suficiente para que a história seja bem abordada.

    Resumindo bastante: temos Sophie, uma mulher marcada pela depressão, e que nunca realmente se recuperou do desaparecimento de seu primeiro marido, com quem teve Rebecca. Agora, pelo término de seu segundo casamento, com o pai do pequeno Martin, ela enfrenta uma nova crise.

    Durante a infância, Rebecca sofreu com a ausência do pai e a depressão da mãe. Agora, na idade adulta, ela se afastou do restante da família, morando sozinha em um apartamento que reflete sua personalidade rebelde (com um pôster de Sandman na parede, pontos bônus para o filme por isso), e tem dificuldades para formalizar, dentro de si, seu relacionamento com um cara bacana.

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    E há uma última personagem: Diana. Ela é a criatura maligna e rancorosa que só existe na escuridão, sendo ferida pela luz. E ela é a depressão de Sophie. Se apeguem a essa ideia daqui pra frente, ainda que eu ache que estou me adiantando um pouco: Diana é a personificação da depressão de Sophie.

    A ideia é ótima, de verdade, e não é a primeira vez que um filme de terror personifica um estado emocional/psicológico. Quem fez isso de maneira brilhante foi The Babadook, e eu finalmente consegui a ponte que eu queria para fazer um post explicando, ponto a ponto, por que esse filme é tão importante, e por que eu sempre falo dele quando estou falando de outros filmes de terror.

    O problema em Lights Out é que, primeiro: o roteiro é incapaz de manter suspense. Para trabalhar dentro do curto tempo de tela e levar ao final, as informações precisaram simplesmente ser atiradas no colo do espectador. A existência de Diana como uma entidade maligna é, inclusive, notória e é parte do dia-a-dia de Sophie. Em sua cabeça, ela e Diana são amigas, e Diana precisa dela. É por isso que ela permite que a entidade perambule pela casa, é por isso que ela mantém sempre as luzes apagadas. É por isso que ela perdoa quando Diana a agride, a prende dentro do quarto, longe do contato dos filhos, a impede de tomar os antidepressivos.

    Segundo: assim que Rebecca e Martin decidem que Diana é real e precisa ser derrotada, todas as informações simplesmente aparecem. Nada de investigação, nada de peças de um quebra-cabeça que se encaixam no decorrer da tensão do filme. Tudo, realmente TUDO, está guardado em uma caixa em um dos cômodos da casa de Sophie: Diana era uma criança com uma rara doença de pele, que a impossibilitava de ter contato com a luz, e que era tratada no mesmo hospital em que Sophie foi internada durante a infância para cuidar da depressão.

    Para justificar a ligação entre as duas meninas, a única coisa que passou pela cabeça dos roteiristas foi “as pessoas diziam que Diana tinha poderes especiais, e entrava na cabeça das pessoas”. Esse detalhe é absolutamente ignorado, e ninguém realmente se importa – logo, é um detalhe que simplesmente não precisava existir. O link entre as duas poderia ser culpa, solidão, qualquer coisa que pudesse ser vinculada à depressão. Não que essas duas coisas não existam, elas existem sim. Isso porque Diana morreu em um tratamento experimental para sua doença: ela basicamente foi carbonizada em uma cadeira elétrica.

    Permitam que eu repita: tentaram curar um problema de pele com eletrochoques. Me desculpe se eu não vejo o nexo dessa escolha de roteiro. De qualquer forma, é daí que nasce a culpa que Sophie sente, e é a partir daí que o espírito mau e vingativo de Diana começa a ser a sombra da mulher.

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    Os personagens também são pouco desenvolvidos, e a história muitas vezes precisa recorrer a decisões sem sentido para fazer a trama evoluir. Por exemplo: mais de uma vez é preciso que o namorado de Sophie saia de cena para que Diana apareça. Uma das cenas literalmente é “estamos apavorados, você pode sair de casa e comprar comida para que o espírito maligno apareça segundos depois? ” Isso porque o namorado dela é, de longe, quem consegue lidar melhor com Diana (e uma dessas cenas – a do carro – realmente me fez rir).

    Todas essas imperfeições e más escolhas de roteiro são coroadas pelo final. Aparentemente, Diana é uma entidade impossível de derrotar. Não há o que fazer, e ela eventualmente matará a todos que Sophie ama.

    É aí que, depois de muito esforço, Sophie encontra força dentro de si para confrontar a criatura, a doença. E a escolha que ela toma é a pior possível, quando paramos para pensar que é um filme sobre depressão.

    Eu não sei se algum de vocês teve algum contato com a doença – que, honestamente, é uma das mais comuns para a nossa geração. Se tiverem, então vocês sabem o quão errado é transformar a depressão em um monstro mau e invencível. O quão errado é fazer Sophie admitir que Diana não existe sem ela, ou que só existe por causa dela. Que ela é a origem da dor que a família está sentindo.

    Acima de tudo, é errado fazer Sophie cometer suicídio para vencer a ameaça da depressão.

    Lights Out é, basicamente, o oposto de TUDO o que quem sofre da doença precisa acreditar. Eu juro que tentei jogar outra luz na história do filme, adotar outro ponto de vista, mas não dá. Eu absolutamente me recuso a aceitar o final desse filme, onde uma mãe se suicida para proteger os filhos da própria doença. Onde a depressão é um monstro que não pode ser combatido, PORQUE NÃO É.

    Diana pode ser derrotada, eu prometo que pode. Ela desapareceria se Sophie encontrasse a força necessária para tomar os remédios (o próprio filme explica que Diana enfraquece quando Sophie se medica adequadamente), para confrontar a própria tristeza, para mostrar para Diana que ela não tem poder. Eu sei que não é fácil, na verdade é difícil de verdade, mas é possível, é sempre possível.

    Se esse filme tem algo bom a ser destacado, foi mostrar exatamente o que não deve ser feito. Em caso de pânico, não quebre o vidro. Não puxe o gatilho. Sobretudo, não deixe que esse filme ridículo coloque ideias erradas na sua cabeça.

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