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crise de ansiedade

    Crônicas

    Frangalhos

    Reprodução

    Reprodução / Este texto foi escrito em 14 de agosto de 2014, durante uma crise de pânico que durou boa parte de uma noite e me deixou exausta por boa parte da manhã seguinte. Ele foi postado originalmente aqui e foi desenterrado recentemente. Publico-o aqui sem qualquer alteração, e tampouco pretendo alterá-lo eventualmente ou aproveitar de alguma de suas ideias. Ele será mantido, para sempre, envolto na embriaguez insone em que foi concebido. Sua versão original, escrita à lápis em uma letra que eu mesma mal reconheci, perdeu-se de mim na manhã seguinte, e hoje aquela noite não é mais do que uma lembrança.

    Minha alma está em frangalhos, assim como esse texto.

    (Minha alma minha mente as vozes na minha cabeça me mandando fazer as coisas está tudo fragmentado em cacos incompleto numa cena eternamente carente de um clímax e eu sinto que a música de encerramento vai tocar antes do final do filme e que eu nunca vou saber como a história termina).

    Eu sinto sono. Sinto tanto sono que não consigo pensar em mais nada além do sono que eu sinto e de como eu sinto enquanto o controle que tenho sobre mim escorre pelos meus dedos porque eu estou cansada demais para agir.

    Mas eu não quero dormir. Não quero dormir. Não vou dormir. Não vou dormir porque assim que eu fechar os olhos os ponteiros do relógio vão girar para frente e para trás num compasso tão descontrolado que o tique-taque vai rir de mim e o despertador vai anunciar o amanhecer assim que eu fechar os olhos pela segunda vez. Eu vou continuar acordada enquanto a realidade escorre por meus olhos e por entre os meus dedos e eu não tenho mais controle de nada ao meu redor ou dentro de mim.

    E, assim, descontrolada, eu assisto passiva e incapacitada enquanto um milhão de ideias fragmentadas passa por mim rápido demais para que eu consiga entender.

    (Ideias fragmentadas textos fragmentados cenas fragmentadas meu reflexo no espelho se desfez em um milhão de pedaços e agora eu estou encarando um espaço vazio por trás do vidro frio sem conseguir passar para o outro lado para descobrir para onde ela foi e por que ela parecia tão triste antes de desaparecer ela não sorriu de volta quando eu sorri para ela e agora não consigo parar de me perguntar se eu realmente estava sorrindo ou se estava sonhando).

    Eu quero tirar essas cenas de mim, esse excesso de cor e movimento que passa apressado por trás das minhas pálpebras, mas eu sei que se eu ficar acordada não vou conseguir escrever nada por inteiro porque está tudo em frangalhos.

    Mas se eu dormir, não vou me lembrar dos fragmentos pela manhã.

    (E além do mais a madrugada é um cenário muito mais interessante é outro mundo é outro lado das pessoas que a gente nunca vê durante o dia é o reflexo no espelho que não sorri de volta pra você e eu observo a madrugada da segurança da minha janela no décimo segundo andar sempre pensando que ninguém lá embaixo vai conseguir me observar de volta e imaginando se eu finalmente consegui ver as coisas como elas realmente são).

    Minhas mãos tremem implorando por papel e caneta, mas eu sei que se começar a escrever agora, não terei nada além de frangalhos que perderão o sentido durante o amanhecer.

    Eu decido que não gosto do amanhecer.

    (A puta lá embaixo se debruça para dentro de um carro e eu consigo ver que ela está descalça e praticamente nua abaixo da cintura a porta do carro abre ela entra e eles vão embora para algum lugar afastado onde eles possam tentar remendar seus corações suas almas as vozes em suas cabeças e o pouco que resta dessa madrugada fria nessa cidade escura que assim como esse texto

    está
    em
    frangalhos).

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