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    Eu vi: A Autópsia

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    Não sei se a internet já sabe o quanto eu amo filmes de terror, mas para todo o lado que eu olho eu vejo trailers e propagandas bem feitas de A Autópsia (ou The Autopsy of Jane Doe, no original). Nós assistimos o filme movidos pela curiosidade e por um fim de semana preguiçoso, de dedos cruzados para não ser mais um desses que tinha tudo para dar certo, mas ferrou o próprio final. Alguém provavelmente ouviu nossas orações, porque esse filme é bom, e o final consegue surpreender.

    A história inova bem pouco, mas usa muito bem todos os clichês ao seu redor. O cenário é um necrotério, que com certeza está no top 10 de cenários mais legais para histórias de terror (seguido diretamente pelo hospital/hospício abandonado). O elenco cabe em uma mão, e um deles é o admirável Brian Cox, no papel de um médico legista viúvo e extremamente profissional, que é auxiliado no trabalho por seu filho Austin, um legista em treinamento.

    A diferença entre pai e filho é nítida, além de bastante importante para o desenvolvimento da história: Tommy, trabalhando na área há décadas, foca unicamente no que é necessário fazer. Ele descobre a causa da morte e deita a cabeça no travesseiro sem sentir culpa e sem se perguntar por que a pessoa morreu daquele jeito. Austin, por outro lado, é jovem e aventureiro, e o que motivou a morte lhe parece muito mais interessante do que a causa científica da mesma.

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    Em mais uma noite comum de trabalho, eles recebem os corpos do aparente massacre de uma família inteira e o cadáver recente de uma mulher jovem, bonita e não identificada (que passa a ser referida como Jane Doe), encontrada parcialmente enterrada no porão da casa. A falta de informações sobre a jovem faz com que ela seja o foco dos dois legistas noite adentro, com a equipe de polícia da cidade precisando de respostas logo ao amanhecer.

    O filme é extremamente gráfico e detalhista no procedimento da autópsia, a gente até aprende uma coisa ou duas. Tommy é um cara metódico, que grava todo o procedimento, explicando para a câmera o que e por que ele está fazendo. A própria narrativa do personagem alimenta o suspense do filme, principalmente quando tudo começa a dar errado.

    A primeira constatação é que os olhos da garota estão acinzentados – coisa que só deveria acontecer vários dias depois da morte – enquanto o seu corpo não possui qualquer rigidez, como se ela tivesse acabado de morrer. Em seguida, seu sangue escorre abundantemente a cada corte, o que seria cientificamente impossível. A partir daí cada corte e abertura mostram coisas impossíveis, desafiando todo o saber técnico e científico do velho médico.

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    Como em toda boa história de terror, coisas estranhas vão acontecendo conforme a autópsia avança. A estação de rádio muda, as luzes piscam, pequenas coisas desaparecem ou mudam de lugar, eles começam a ouvir barulhos e ver vultos pela clínica. E nada do que eles descobrem no cadáver faz sentido, questionando todas as poucas certezas que Tommy tem na vida – inclusive aquela de que os mortos permanecerão mortos enquanto você os estuda.

    O filme flui como um conto de acampamento, ao redor de uma fogueira. É um caso que começa e termina em uma única noite e, por mais que nada ali seja realmente inovador, o final te pega de surpresa. Principalmente porque gente calejada em filme de terror que nem eu é cheia de achar que consegue adivinhar o fim da história – exatamente por isso que as pequenas surpresas do desenvolvimento de A Autópsia são tão bem vindos.

    Pensando agora, eu acredito que o final desse filme seja um dos que mais me deixou satisfeita ultimamente. Foi um encerramento bastante digno da história, e inclusive daria até mesmo espaço para uma continuação.

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    A identidade de Jane Doe dá um ar bastante diferente para a história – e eu sei que tem muita gente por aí que bem tentou problematizar a situação. Honestamente, minha única crítica sobre isso é que o mistério talvez tenha sido resolvido muito facilmente. Como quando você coloca uma peça no quebra-cabeças e, a partir daí, já sabe a posição de dez outras peças que estavam ali por perto. Isso seria perfeitamente aceitável se qualquer um dos personagens fosse um padre, um investigador, um fã do sobrenatural. Agora, para dois médicos legistas, eu fiquei surpresa até mesmo por um deles ter uma Bíblia junto dos manuais de medicina.

    Ah, e claro, esse filme merece um gigantesco friendly spoiler. Quem está acostumado com as minhas resenhas já sabe o que isso quer dizer, mas para quem acabou de chegar: Tommy tem um gato de estimação e, aparentemente, gatos são as Tchekov’s guns dos filmes de terror. Se existe um em cena, ele eventualmente vai morrer, e em A Autópsia a cena é consideravelmente longa e bastante desagradável. Sintam-se à vontade para avança-la que nem eu fiz, porque nenhum de nós é obrigado.

    Ainda assim, eu achei A Autópsia um filme excelente, desses que me deu até orgulho. Eles não deixaram que a simplicidade dos efeitos especiais comprometesse o produto final, usaram com maestria um elenco minúsculo e tiraram o melhor de uma história simples, de um conto de acampamento ao redor de uma fogueira. E a gente bem sabe que essas histórias são as mais legais.

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