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Maratona Oscar: The Shape of Water

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Quem me conhece sabe que Guillermo Del Toro é um dos meus nomes favoritos na indústria do cinema, sem nem comparação. Eu posso não ter visto todos os filmes dele, e eu posso não ter gostado de todos os que eu vi, mas eu sempre soube apreciar a beleza e admitir a genialidade de cada um deles, da fantasia sombria ao terror que te faz chorar no fim.

Desnecessário dizer que, quando as primeiras notícias sobre The Shape of Water (ou A Forma da Água, na versão traduzida) vieram à tona, eu fiquei empolgadíssima – na época, só o boato de o Del Toro estar trabalhando em “um conto de fadas sombrio da nova geração” me subiu arrepios pelo corpo inteiro. Quando finalmente a lista de nomes indicados ao Oscar foi lançada, e o conto de fadas de Del Toro liderava com avassaladoras 13 indicações, minha empolgação foi às alturas. Eu assumo aqui a minha parte da culpa: uma parte de mim realmente esperava algo digno, quiçá ainda melhor que O Labirinto do Fauno, filme que definiu boa parte da minha juventude.

E aí, quando finalmente tivemos a oportunidade de ver The Shape of Water – com alguns dias de enrolação porque talvez fosse um filme muito emocionante e a gente não conseguisse segurar o choro – o resultado foi bem diferente do esperado, e alguns de vocês, mais antenados, talvez já saibam pra qual lado esse post está indo. Mas primeiro vamos focar no filme em si:

Falando de coisa boa, The Shape of Water carrega uma das protagonistas mais humanas, originais e inspiradoras que eu já vi no cinema. Elisa é uma mulher simples, dessas que a gente cruza na calçada e nem bem percebe, ela vai totalmente contra essa ideia fixa de personagens femininas que Hollywood perpetuou, e toda a primeira parte do filme é dedicada a mostrar como ela é, de todas as formas, uma pessoa como eu e você, mas com algo a mais: ela é muda. Eu não sei vocês, mas esta foi a primeira vez que eu vi uma pessoa muda sendo retratada em um filme, e a atuação de Sally Hawkins é algo absolutamente digno de Oscar. Elisa possui três amigos: uma mulher negra que trabalha com ela como faxineira de um laboratório militar (Octavia Spencer, como sempre, entregando uma atuação excelente); um homem de meia idade gay que vive na porta ao lado – considerando que a história se passa nos Estados Unidos de 1960, a gente já entende o que isso significa e onde o Del Toro quer chegar com a existência destes dois personagens; e, por último, uma criatura marinha mitológica, com aspectos humanos e anfíbios, que é mantida cativa dentro do laboratório, a melhor chance que o exército americano tem de vencer os russos na corrida espacial.

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Juntando estes quatro personagens, nós temos o que o próprio co-produtor do filme chama de “freaks in a lab”. Para todos os efeitos, na década de 60, uma criatura marinha não é a única aberração de que se tem notícia quando o quadro de protagonistas é composto 100% por minorias, e o vilão da história não poderia ser ninguém menos do que o homem americano branco, rico e hétero. Falando sinceramente, eles estão errados? Não estão, e a gente sabe. Mas fazer com que personagens existam unicamente para levantar bandeiras e cumprir cotas (três atores negros no filme inteiro, apenas uma com mais de duas linhas de fala, caso você esteja interessado) também não te torna um cavaleiro de armadura a favor da igualdade. A novidade aqui é que, dessa vez, o espião russo é muito mais do bem do que o americano padrão.

Mas esse não é o problema do filme. O X da questão também não é o fato de uma humana e uma criatura marinha manterem relações sexuais. Problemática mesmo é a notória falta de originalidade e, quem sabe, de honestidade, que envolveu a produção de The Shape of Water.

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Vamos começar pela criatura: em 2008 (faz tempo, mas não o suficiente pra gente esquecer), Guillermo Del Toro dirigiu o filme Hellboy II: The Golden Army, onde o protagonista divide cena com um personagem meio homem, meio criatura marinha, chamado Abraham “Abe” Sapien, cuja história começa em – adivinhem? – um laboratório militar nos Estados Unidos, onde foi encontrado por funcionários na época da Guerra Civil Americana. E é ser otimista demais acreditar que o visual do monstro de The Shape of Water não foi largamente inspirado (pra não dizer outra coisa) no personagem de Hellboy – e, lembrando que teremos outro filme de Hellboy em 2019, é lógico que ninguém tem os direitos de imagem de abordar a origem de um dos personagens da franquia livremente. E isso não é coisa que vocês só vão ver por aqui, a internet tá toda em polvorosa por causa da semelhança.

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Isso foi algo que a gente percebeu vendo o filme (inclusive, por aqui a criatura de The Shape of Water se chama Abe e não há quem nos convença do contrário), e na hora, apesar de um pouco decepcionante por não ser nada, de fato, original, a gente acabou fazendo piada sobre a galera da Academia não ter percebido que o líder de indicações ao Oscar era um filme de super-herói e ficamos por isso mesmo. Mas aí, acreditem se quiserem, a história piorou:

Piorou porque, recentemente, o que mais a gente vê por aí são notícias sobre a gigantesca denúncia de plágio que The Shape of Water anda sofrendo. Acontece que o filme de Del Toro é extremamente parecido (de novo, pra não dizer outra coisa) à uma peça de teatro que foi televisionada em 1969 (ainda não faz tempo suficiente pra galera esquecer), e publicada como livro em 1974 chamada Let me hear you whisper. Eu vou poupar as comparações, mas vou deixar uma notícia do The Guardian (em inglês) sobre o assunto. Essa matéria, além das semelhanças, também aborda algumas diferenças entre as duas obras: a deficiência da protagonista e o fato de seu melhor amigo ser gay – o que, honestamente, jamais teria acontecido em uma peça produzida nos Estados Unidos da década de 60 que a gente tanto falou por aqui – no entanto, aparentemente a peça conta com um diálogo a respeito de pessoas mudas.

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E aqui eu sou obrigada a opinar como fã, como bacharel em Direito e como criadora de conteúdo: a gente vê plágio todo dia, o dia todo, em vários níveis diferentes, e todos eles são inaceitáveis. A gente vê pessoas grandes e pequenas, com diferentes níveis de importância, plagiando outros descaradamente, e a gente tem a obrigação de intervir e de também boicotar todo mundo que faz, porque além de ilegal é imoral. É difícil acreditar que estamos diante de uma divertida coincidência, e é doloroso perceber que um profissional que eu admiro tanto tenha ido tão baixo. Pra mim, The Shape of Water, que já era algo pouco ou nada original, se tornou um exemplo indefensável de desonestidade.

Depois disso, eu preciso admitir que o filme morreu pra mim, e apesar de o Del Toro ainda ter um espaço reservado no meu coração por suas produções passadas, eu talvez não fique assim tão empolgada para seus trabalhos futuros. Estou realmente curiosa para saber tanto do desfecho das acusações (porque por enquanto a única resposta foi “não sei, não vi, não é minha culpa”) quanto para ver como a Academia vai se comportar sobre isso na premiação do Oscar.

Como sempre, tá tudo bem se você não concordar comigo, e você é livre pra trocar uma ideia sobre esse assunto nos comentários aqui embaixo, eu vou ficar super feliz de ler o que vocês tem para dizer sobre este casinho aqui.

E boa maratona pra gente!

 

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2 Comentários

  • Responder Raylane

    Fiquei intrigada com tudo isso. Preciso ver esse filme.

    31 de Janeiro de 2018 às 12:17
  • Responder Karin Paredes

    Oi Marcela!
    Bom, sempre tenho vontade de maratonar os filmes do Oscar, mas nunca consigo.
    Acho que nunca foi muito perseverante nisso.
    Confesso que li o seu post, muito superficialmente, da forma que eu chamo como leitura diagonal, por medo de spoilers já que vi tanta gente falando bem dele.
    Pelo pouco que li, gostei da sua crítica que vai totalmente contra o que a galera está achando. é um ponto de vista muito interessante e você argumentou bem embasada.

    Não me prendo tanto nas questões bastidores (salvo várias exceções), mas saber o que tem por trás da criação de um filme, da ideia até a sala de cinema, é bem interessante para nos dar uma ideia das intenções dos seus criadores para querer expô-la ao mundo.

    Fiquei com um pé atrás depois de ler a sua crítica, mas mesmo assim quero ver o filme para tirar as minhas conclusões.
    Pode ser que eu tenha um olhar mais crítico do que teria se não tivesse lido seu post.

    Mil beijos

    10 de Fevereiro de 2018 às 08:28
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