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Eu vi: Corra! (Get Out)

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Vocês sabem como eu me sinto sobre política. Mais do que isso, vocês sabem como eu me sinto quando uma pessoa usa algo como preceito para esfregar seus ideais políticos na cara de um público que, independente da opinião, não merece isso. Não que eu não seja a favor da boa e velha discussão acalorada, de um bom debate, mas, artisticamente falando, eu acho extremamente desrespeitoso quando um roteirista prontamente estraga uma boa história para inserir nela, em segredo, uma opinião pessoal (que, como não tinha nada o que estar fazendo ali no meio, também acaba corrida e pouco elaborada).

Curiosamente, eu gosto de política – mas eu não suporto os políticos, ou gente metida a politizada. Isso com certeza é um problema, principalmente porque, hoje em dia, todo mundo parece ter uma opinião ferrenha sobre tudo, por mais que ninguém nunca tenha lido nada a respeito de nada. Somos todos revolucionários de sofá, intelectuais de Facebook que baseiam seu conhecimento e sua opinião em artigos incertos e absolutamente pessoais escritos por pessoas que, assim como nós, nunca estudaram nada além do que aparece no feed, e mesmo assim queremos falar bem alto e sermos ouvidos como se soubéssemos realmente sobre o que estamos falando.

É por essas que outras que, quando eu li a sinopse de Corra! pela primeira vez, prometi a mim mesma que não veria o filme. Tinha tudo para ser mais uma fonte de irritação, mais uma ideia férrea porcamente elaborada e disfarçada de sétima arte. Eu estava (ainda estou, diga-se de passagem) traumatizada e especialmente irritada com o que Ghost in the Shell tinha se mostrado, e decidi poupar a mim mesma de mais uma possível fonte de irritação…

… Mas vocês também sabem que eu não resisto a um filme de terror, mesmo que ele tenha tudo para ser ruim. A decepção no cinema de terror é um terreno que eu já conheço bastante, e hoje em dia dificilmente eu faço algo mais do que simplesmente catalogar minhas decepções em categorias pré-determinadas. A gente etiqueta um filme ruim e o guarda na gaveta com os outros filmes que são ruins do mesmo jeito, e vida que segue.

Felizmente, essa minha decisão foi amparada por uma resenha até bastante positiva de um cara que eu gosto bastante, a martelada final na minha decisão de “que vá tudo pro inferno”. Naquele mesmo dia, lá estava eu assistindo Corra!. Se você também está curioso para ver o filme, pode ler o texto tranquilo porque esse post não tem spoilers.

(E nesse momento você para, respira fundo e abre esse link aqui na aba ao lado, antes de a gente voltar a falar do filme).

O filme foi escrito, produzido e dirigido por Jordan Peele, um comediante afro americano que estaria trabalhando nessa história desde a primeira eleição do Obama e que, aparentemente, queria inserir a sensação que ele e tantas outras pessoas têm diariamente ao redor do mundo em um filme de terror e suspense. Jordan Peele queria falar sobre o racismo.

Mas não pensem em ofensas, perseguições, em negros sendo atacados na rua, sendo segregados em seus Estados ou mesmo sofrendo com a diferença de oportunidade. Não tem nada de Moonlight ou do maravilhoso Loving em Corra!, mas também não tem nada do que embala os flashbacks do livro It – A Coisa, por exemplo.

Isso porque aqui o problema não são as pessoas brancas que odeiam negros, são as pessoas brancas que se forçam a aparentar que adoram negros, porque aprenderam no decorrer da vida que ser (pior ainda: parecer) racista é uma coisa horrível.

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Conhecemos Chris, um fotógrafo jovem e extremamente talentoso, que mora num apartamento bacana com seu cachorro fofinho e tem, basicamente, uma vida boa. Chris é negro, e namora Rose, uma garota branca de família rica, há alguns meses – tempo suficiente para que ela consiga convencê-lo de que é hora de conhecer seus pais. Quando ele questiona se os pais de Rose, um neurocirurgião renomado e uma psiquiatra habilidosa, sabem que ele é negro, ele recebe uma resposta que bem que tentou ser tranquilizadora. Relaxa, Chris, os pais da Rose não são racistas. Na verdade, eles adoram gente negra. Totalmente votariam no Obama para um terceiro mandato se pudessem. Fica tranquilo, racismo é TÃO anos 60, we are so over it.

E, quando eles chegam na casa suburbana da família Armitage, os pais de Rose realmente são bastante acolhedores (e constrangedores como só pais conseguem ser). Mas o problema com gente que tenta parecer o que não é, é que elas nunca conseguem realmente entrar no personagem. Chris logo percebe que, ao passo em que a família de Rose é toda branca, todos os funcionários da casa são negros. São só isso: eles são estranhos. O filme passa essa impressão de que o negro americano se reconhece e se trata de um jeito particular, então, ainda que os criados da casa sejam negros, aparentemente eles não parecem negros. O mesmo vale para o único camarada negro que aparece na anual festa da família que – que coincidência! – acontece justamente no fim de semana que Chris está lá. Uma multidão de gente velha, branca e rica que só falta colocar Chris num pedestal para ser adorado, porque eu não sei se eu já disse isso por aqui, mas eles com certeza ADORAM gente negra. Não senhor, nenhum racista por aqui. Black is the new black e toda essa ladainha.

E Chris é um cara esperto, ele sabe que tem alguma coisa muito errada com essas pessoas, ainda que ele não consiga dizer exatamente o quê. Seja pelo celular dele que sempre aparece fora do carregador, seja pela forte impressão de que a mãe de Rose o hipnotizou sem o seu consentimento para que ele parasse de fumar, seja pelo fato de que todas as (três) pessoas negras que frequentam aquela casa se comportem como se estivessem mortas por dentro, alguma coisa decididamente está errada.

O filme segura a tensão muito bem, mas não o suficiente para que eu o caracterize como um filme de terror. Ele é, no máximo, um suspense com um desenrolar inusitado, quase uma ficção científica, principalmente se a gente considerar que Peele provavelmente tirou o nome Armitage de Neuromancer (e isso é tudo que vocês vão me ver falar sobre a conclusão da trama). Parte disso se dá por conta de Rod Williams, melhor amigo de Chris que, quando as coisas começam a sair do controle na casa dos Armitage, conduz à sua própria maneira uma investigação para descobrir o que diabos está acontecendo. Veja bem: Rod não é um alívio cômico, ele é a comédia em pessoa. Ninguém deveria ter tanto bom humor em um filme de terror, e ninguém deveria rir tanto de piadas bem contadas em dito filme. O personagem interpretado por Lil Rel Howery (que é, de fato, um comediante) ilumina tanto a cena que mesmo na pior das hipóteses você ainda tem fé plena de que vai tudo acabar bem. Acho que quando a gente fala de um filme de terror escrito por um comediante, só temos duas opções: ou vai ser a coisa mais cruel e assustadora que você já viu na vida, ou o autor não vai conseguir esconder sua verdadeira essência bem humorada. Corra! está mais para a segunda opção.

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O final da história não desaponta, mas também não faz valer. Tinha um ar, talvez proposital, meio Black Mirror, mas a conclusão foi tão fantasiosa quanto inesperada, e foi algo que nem mesmo os personagens inseridos no contexto souberam explicar. O que acontecia simplesmente acontecia, e é isso. Ninguém ali tinha realmente se preocupado em buscar explicações, e esse foi o grande defeito do filme, junto com algumas cenas sensacionais que existiam no trailer e foram excluídas do produto final, o que deixou todo mundo muito bravo.

Ao contrário do que eu acreditava, Jordan Peele conseguiu fazer um filme excelente. Sua ideia foi passada de maneira sensata, realista, ácida do jeito certo, e ela tinha tudo a ver com a história. Infelizmente o final falhou em sustentar o resto da trama, mas nem por isso o filme se tornou ruim. Enquanto toda a produção e desenvolvimento são magistrais, o final é só bizarro – e a gente sabe que poderia ter sido bem pior. O desenvolvimento de Chris é, por si só, ótimo. Ele é um personagem sólido, palpável e que é possível ver evoluir no decorrer da uma hora e meia de filme. E conforme ele vai descobrindo os esqueletos dentro dos armários da mansão Armitage, é impossível não sentir um frio na espinha. A gente se sente no lugar dele, independente da cor de quem esteja assistindo, e isso fica com conosco mesmo depois que o filme termina. Peele abordou um tema complicado com um bom humor incrível e uma sensatez nobre, e definitivamente conseguiu passar a mensagem que pretendia. Isso, meus amigos, é um sucesso completo, muito além do fim do filme.

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12 Comentários

  • Responder Lorraine Faria

    mas viu, para quem é meio mirim em filmes de terror (medinho mesmo haha), dá pra assistir?
    acabei de ler uma resenha que falava que esse filme dava vários sustos 🙁 e falando no ar black mirror do filme, esse ator fez um ep lá né?

    beeeijo

    17 de maio de 2017 às 12:23
    • Responder Marcela Fabreti

      Eu acho que dá pra assistir sim, de verdade! É verdade que o filme consegue te deixar bastante tenso em muitas cenas, mas honestamente eu não levei susto nenhum! E esse ator fez Black Mirror sim! Aquele episódio sensacional que é tipo um Big Brother e eles pedalam pra conseguir créditos, é um dos meus favoritos! E ele vai estar em Pantera Negra também.

      16 de junho de 2017 às 19:17
  • Responder Mila

    Não gosto de terror, mas me pareceu mais um suspense e fiquei curiosa para ver a conclusão bizarra. haha
    Bjs

    18 de maio de 2017 às 00:47
    • Responder Marcela Fabreti

      É bem mais suspense/sci-fi do que terror!

      16 de junho de 2017 às 19:18
  • Responder Clayci

    Finalmente consegui ler a sua resenha sobre o filme, uau!
    Quando vi o trailer e li alguns comentários imaginava uma coisa completamente diferente, Cela! Eu fiquei com vontade de assistir sim, mas sem muita expectativa ahuhauhauhauhauha.

    Eu amo filmes de terror, mas pelo que vc disse senti mesmo que se trata de um suspense

    23 de maio de 2017 às 14:00
    • Responder Marcela Fabreti

      Sim, é muito mais suspense do que terror! Eu já vi o filme sem a menor expectativa né? Na verdade eu tinha expectativa de ser um filme péssimo, então acabei me surpreendendo muito positivamente, hahaha.

      16 de junho de 2017 às 19:19
  • Responder Vitória Bruscato

    Uau! Depois de ler esse post, me interessei muito pelo filme! Aliás, parabéns, nunca vi uma resenha de um filme tão bem escrita quanto esta! 🙂

    28 de maio de 2017 às 22:31
    • Responder Marcela Fabreti

      Wooooow que legal! Muito obrigada mesmo! Espero que goste do filme!!

      16 de junho de 2017 às 19:21
  • Responder Juliana

    Eu gostei MUITO da sua resenha, já do filme, nem tanto.
    Valeu pela parte da crítica que achei que foi inserida de uma forma inteligente e até diferente do que já vi por aí, mas acho que não é meu tipo de filme mesmo 🙁
    Mesmo não ficando com medo enquanto estava vendo, terror não é muito comigo.

    29 de maio de 2017 às 14:19
    • Responder Marcela Fabreti

      Ah Ju, acontece. Se não curte o gênero mesmo o melhor é nem se forçar, porque aí é quase certeza que você não vai curtir, por mais bacana que o filme possa ser!

      16 de junho de 2017 às 19:22
  • Responder Jaqueline

    Assisti o filme e dormi na metade dele 🙁 Nossa, li tantas resenhas boas dele, tanta critica boa, mas infelizmente achei entediante…ou não sei se eu mesma estava muito cansada. Bem, talvez um dia eu o assista até o final…
    http://www.blogflorescer.com

    11 de junho de 2017 às 09:58
    • Responder Marcela Fabreti

      hahaha pode ser! O desenvolvimento do filme é bem lento mesmo, a melhor coisa é ver num dia em que está disposta e com pique justamente pra ver um filme assim!

      16 de junho de 2017 às 19:23

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