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Eu vi: Ghost in the Shell (2017)

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Vocês lembram o quanto eu estava empolgada para esse filme desde o lançamento do primeiro trailer. Tinha tudo para ser perfeito: desde cenas fielmente reproduzidas do anime até Depeche Mode na trilha sonora. Como sempre, na semana do lançamento, lá estava eu toda esperançosa na sala do cinema, ignorando o fracasso de bilheteria que o filme estava sendo.

Honestamente, o filme inteiro está lindo. O cenário é maravilhoso, a caracterização de todos os personagens está impecável, os efeitos especiais são bacanas, MAS…

… Quando a gente chega no roteiro, infelizmente a coisa toda degringola além da salvação.

Vocês também estão sentindo que os filmes estão cada vez mais bonitos e mais burros? Que ao passo em que os efeitos especiais ficam cada vez melhores, o roteiro fica cada vez mais pobre? Não vou mentir: o roteiro, para mim, é o ponto mais importante do filme. Um roteiro bom transforma um cenário simples e um elenco que dá para contar nos dedos de uma mão em algo sublime (vide Onze Homens e Uma Sentença, uma obra-prima em todos os sentidos, e Fragmentado, que é o próximo filme que vai aparecer por aqui).

O roteiro toma várias decisões desnecessárias. Talvez, no afã de se afastar da obra original e criar uma aura própria, os roteiristas decidiram alterar pequenas coisas aqui e ali, pontos aparentemente sem importância, mas que fazem o expectador se perguntar, o tempo todo, por que aquilo aconteceu.

Talvez os dois maiores exemplos sejam o Batou, que só adota os implantes oculares no meio do filme, o que coloca em cheque diversas características do personagem; e a Major, que só passa pela cirurgia depois de adulta. Além disso, temos Aramaki, o único personagem que, a despeito de todos possuírem tradutores em tempo real de todos os idiomas, fala japonês quando todos os outros falam, obviamente, inglês (pessoalmente, eu vejo esta como a primeira tentativa do filme de eliminar o whitewash do qual ele foi acusado).

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Aqui, a protagonista se chama Miria Killian e não Motoko Kusanagi, e em momento algum é explicada a razão por seu título de Major – honestamente, enquanto na obra original ela recebeu esse título depois de lutar em uma guerra mundial, no filme ela usa a patente como uma alcunha, inclusive chegando a dizer que seu nome é Major.

O filme não tem nada do appeal filosófico ou sociológico do anime. Eles se esforçam até demais para fazer o expectador entender o conceito de fantasma (ghost) e concha (chell), o primeiro como alma e o segundo como corpo. A alma permanecendo intacta ainda quando o corpo é completamente destruído e o cérebro é transplantado em um robô. Eles jogam esses conceitos tão repetidamente na sua cara em um curto período de tempo que fica difícil não pegar o trocadilho – que foi arruinado pela tradução em português do título como A Vigilante do Amanhã, mas tudo bem.

As cenas de luta são medíocres, para dizer o mínimo – o que é algo ridículo de se admitir quando o filme todo é carregado pela Scarlett Johansson, a fucking Viúva Negra, que possui sequências de luta maravilhosas na franquia Os Vingadores. Ao que parece, manter a censura do filme baixa ou nula (14 anos no Brasil, o que é o mesmo que nada – vide a pirralhada que sentou atrás de mim no cinema) era mais importante do que manter sequências bem-feitas de ação. O resultado dessa escolha é a absoluta ausência de sangue (com a desculpa de todos os mortos e feridos serem robôs), e as cenas de pancadaria serem todas disfarçadas por jogos de luz mal feitos.

O ponto forte do filme é, com certeza, a caracterização dos personagens. Johan Phillip está perfeito como Batou e, apesar de tudo, a Scarlett como Major também ficou bem legal. Lá atrás, quando o trailer do filme foi lançado, nos foi prometido um vilão inteiramente novo, inspirado em David Bowie. Infelizmente, isso e Depeche Mode na trilha sonora não se concretizaram: o vilão do filme é Kuze, velho conhecido dos fãs da franquia original e interpretado BRILHANTEMENTE por Michael Pitt. Honestamente, esse cara foi o ponto alto do filme inteiro, a minha vontade era rever todas as cenas em que ele aparece, porque está realmente muito bom.

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Fora isso, no decorrer da trama existem alguns pequenos oásis compostos pelas cenas que foram literalmente copiadas do anime. Todas essas cenas ficaram perfeitas, impecáveis a ponto de destoarem do restante da produção, e foram os únicos pontos que deixaram meu coração tão em dúvida, e essa resenha tão difícil de escrever. Eles conseguiram, inclusive, reproduzir de maneira incrível a luta da Motoko contra o spider tank, coisa que ninguém acreditava que eles conseguiriam fazer.

Voltando aos personagens, no entanto, conforme a história avança de maneira incerta, sem saber muito de onde veio e para onde vai, nós descobrimos que Kuze não é, realmente, o vilão da história. Ele poderia ser, pois é um dos hackers mais talentosos de que se tem notícia. Seu crime é hackear – e matar – diversos executivos e cientistas responsáveis pelo corpo mecânico da Major. No entanto, quando sua motivação fica clara, ao mesmo tempo em que o passado de Mira Killian deixa de ser um mistério, nós descobrimos Kuze como um anti-herói lutando bravamente contra…

… Contra quem mesmo?

Pois é, porque a partir disso, descobrimos que o vilão é um personagem que também não sabe de onde veio e nem para onde vai. Não tem motivação, não tem objetivo, não era nem um cara lá muito poderoso, principalmente quando a gente compara com um personagem que te hackeia só de olhar pra você.

Sendo bastante direta, o roteiro sacrificou a ideia de um vilão decente em defesa de um ponto de vista político que não tinha lugar no filme e, falando de Hollywood, é extremamente hipócrita. Isso porque o vilão desse filme é o capitalismo em si. Dane-se o cara que matou pessoas importantes por vingança, quem é do mal mesmo é o empresário que toma decisões sem ética para ganhar dinheiro. Ele não tem nenhuma habilidade especial, nenhum motivo por trás, ele simplesmente quer lucrar em cima do próprio produto e isso faz dele o monstro a ser combatido. Em momento nenhum ele é uma ameaça, e ele quase não participa da história em si – o que é bem ridículo quando a gente pensa que toda a trama deveria girar em torno de vencer o cara.

Em resumo, lá no final a gente descobre que várias das decisões “sem sentido”, na verdade, foram tomadas em defesa de opiniões políticas. Ghost in the Shell sofre da mesma doença de Estrelas Além do Tempo: colocam o nexo da história em risco para tentar parecerem legais. Colocam a Major como uma ex-refugiada lutando contra terroristas, colocam o executivo milionário como vilão da história porque ele só pensa em ganhar dinheiro… E a cereja do bolo vai pro final da história, quando Mira descobre quem ela realmente é.

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Caso vocês não queiram spoilers, pulem só o próximo parágrafo.

Eventualmente, Mira Killian descobre que seu verdadeiro nome é, de fato, Motoko Kusanagi. E, acreditem se quiserem: ela descobre que ela era uma militante japonesa que escrevia manifestos contra o avanço tecnológico e protestava contra os grandes. Por isso, SÓ POR CAUSA DISSO, tanto ela quanto o Kuze e dezenas de outros jovens “de esquerda”, por assim dizer, foram sequestrados por aquele mesmo executivo capitalista do mal, mortos a sangue frio e tiveram seus cérebros transplantados em robôs como parte de um experimento e transformados em soldados do capitalismo.

Com essa brilhante ideia os roteiristas conseguiram tanto justificar a vilania do tal executivo quanto a mudança do nome da protagonista e o fato de ela não ser interpretada por uma japonesa. Não culpe Hollywood, Hollywood é legal!! Culpe o monstro do capitalismo, que vai roubar sua identidade, seu passado, sua nacionalidade (?) e estragar o filme que você gosta.

E, já que é pra ser chata, essa motivação não é só ridícula como também é bastante burra, porque o cara gasta zilhões de dinheiros pra ter zero resultado. Pensando em investimento, em mercado, isso não faz o menor sentido. Faça-me o favor, o capitalismo opressor tá aqui diariamente pra todo mundo ver e NEM ASSIM os caras conseguiram inventar um vilão decente movido à ganância.

Enquanto isso, do outro lado da moeda, eles também excluíram não só toda a discussão filosófica da trama, assim como todas as citações bíblicas que partem dos próprios personagens (por exemplo, a cena da Major embaixo d’água), porque Hollywood eventualmente decidiu que religião não é cool e que o público não precisa de debates existenciais de qualquer natureza, pra não correr o risco de ofender ou entediar alguém.

Acho engraçado que, depois de defender estas ideias com tanto afinco, os roteiristas do filme não tenham ficado satisfeitos com o fato de sua obra ter sido um fracasso de bilheteria.

Minha recomendação depois disso tudo? Vejam o anime. Ignorem a porra de Hollywood.

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21 Comentários

  • Responder Lala Ismerim

    Olha, tava sem vontade de ver o filme pois não tinha assistido o anime.
    Agora vou optar em assistir o anime mesmo.
    Acho péssimo quando um filme destorce a história original =/
    Beijo

    22 de abril de 2017 às 16:46
    • Responder Marcela Fabreti

      O anime é maravilhoso, assista de verdade que você não vai se arrepender. ❤️

      16 de junho de 2017 às 20:12
  • Responder Andressa Souza | Coadjuvando

    Sua resenha foi a mais completa que vi até hoje do filme e me deixou em dúvida se ainda quero ver hahaha Desconsiderando que se originou de um anime, se fosse só pelo filme valeria a pena?

    22 de abril de 2017 às 22:29
    • Responder Marcela Fabreti

      Que bom! Fico feliz que tenha gostado! E olha, acho que se a gente excluísse toda a história original e a hype do anime, o filme por si só não seria ruim, talvez um pouco confuso. Honestamente, ele por ele eu achei até bem chatinho, e acredito que a maioria das pessoas que assistiram compartilhariam da minha opinião, porque apesar de visualmente bonito, ele é bem raso, meio que começa do nada e vai pra lugar nenhum.

      16 de junho de 2017 às 20:14
  • Responder Milena

    Preciso confessar que não li o post todo, mas calma, não foi porque não gostei da sua escrita. É que eu não faço ideia de que anime tu tá falando, na verdade. Mas vou mandar esse post pra minha cunhada que simplesmente não para de falar desse filme hahaha

    23 de abril de 2017 às 04:28
    • Responder Marcela Fabreti

      HAHAHAHAAH acontece. O anime chama Ghost in the Shell, mesmo nome do filme. É uma história já antiga, mas mesmo pra hoje ela é MUITO boa, e o traço ainda é excelente. Eu recomendo de verdade que você assista!

      16 de junho de 2017 às 20:15
  • Responder Katarina Holanda

    Eu sei que a crítica não tem esse papel, mas ouvi falar tão mal do roteiro que desanimei total de ver. :/ Melhor partir mesmo pro anime que a opinião é unânime, haha.

    24 de abril de 2017 às 09:26
    • Responder Marcela Fabreti

      Às vezes é bom, porque vai que os produtores aprendem alguma coisa com o tanto de crítica negativa que o material tem recebido e resolvem mudar a abordagem. Eu sei que isso provavelmente não vai acontecer, mas a gente sempre pode sonhar, hahahah.

      16 de junho de 2017 às 20:24
  • Responder Rubyane

    Eu adorei esse post! Já vou ir dar uma olhada nos outros posts sobre filmes que tem por aqui *-*
    Sobre esse filme, ele nunca chegou a me interessar realmente, mas o anime me interessa, o anime eu pretendo assistir um dia hehehe
    Sobre as cenas de luta não serem tão boas, poxa, aí já fica tenso quando o filme é de ação e as cenas de luta são medíocres ‘-‘

    24 de abril de 2017 às 16:27
    • Responder Marcela Fabreti

      Fico feliz que tenha gostado! Espero que goste dos outros também! ❤️ E assista o anime sim, melhor decisão que você toma! E realmente, as cenas de luta não serem boas foi ridículo, principalmente porque a Scarlett é a rainha das cenas de lutas em Avengers.

      16 de junho de 2017 às 21:11
  • Responder Ana Letícia

    Olá, tudo bem? Não tive a oportunidade de ver o anime e o filme, mas faz um certo tempo que quero dar uma chance para o anime. Sobre o filme, ate que antes do seu lançamento tinha ficado curiosa, porém agora já li tanta resenha negativa que desanimei.

    Tchauzinho e adorei a resenha.

    24 de abril de 2017 às 20:14
    • Responder Marcela Fabreti

      Fico feliz que tenha gostado! 😉 Eu realmente espero que esse filme tenha deixado as pessoas com vontade de ver o anime, e super acho que você deveria logo correr atrás de ver também!

      16 de junho de 2017 às 21:12
  • Responder Bia Lourenço

    Confesso que não conhecia o anime, mas diante de toda a polêmica envolvendo o “whitewashing” acabei lendo muito sobre o filme. Os trailers fazem o filme parecer super agitado, mas já fiquei sabendo que não é por ai e acabei desanimando.
    Também tenho essa sensação de que os filmes estão cada vez mais produzidos, mas os roteiros estão mais fracos.

    Beijos

    25 de abril de 2017 às 10:05
    • Responder Marcela Fabreti

      Os trailers do filme foram lindos, né? Pra você ter noção da hype, eu fiz um post por aqui só surtando no dia que o trailer oficial de GITS foi lançado… Aí imagina minha cara de tacho no cinema, super desapontada depois, hAHAHA.

      16 de junho de 2017 às 21:13
  • Responder Eduarda Garcia

    Estou meio com o pé atrás sobre esse filme, mas ainda assim quero assistir.Acho a Scarlett Johansson maravilhosa, só acho que esse papel não era para ela.

    25 de abril de 2017 às 11:27
    • Responder Marcela Fabreti

      Ela é maravilhosa mesmo, e por incrível que pareça fez um bom trabalho nesse filme. Mas um elenco bom nunca salva um filme de roteiro ruim, né? Infelizmente 🙁

      16 de junho de 2017 às 21:14
  • Responder Yui Pink

    Olá! Bem, eu como otaku, não curto quando adaptam para o cinema americano as produções. E eu imaginei que eles iam escorregar em alguma coisa, tanto é que nem animei de assistir o Ghost in the Shell, já que o original é muito bom. E tá vindo aí o Death Note, um dos meus animes favoritos, e espero que não estraguem muito. Bem, adorei a resenha, foi muito esclarecedora. Abraços e sucesso!

    http://www.pandapixels.com.br

    25 de abril de 2017 às 11:54
    • Responder Marcela Fabreti

      A primeira coisa que eu vou te dizer é que eu AMEI o nome do seu blog, hahaha! E vou te contar que também me dá um NERVO quando eu descubro que vão adaptar animes pra filmes de Hollywood. Na real qualquer adaptação live action me dá nervoso de ser ruim, eu geralmente passo longe. Sobre Death Note, cara, eu tô com medo real, o trailer me fez rir de tão ruim que era D:

      16 de junho de 2017 às 21:16
  • Responder Júlia

    Eu estava super animada para assistir Ghost in The Shell (mesmo com o subtítulo ruim) porque, para ser honesta, muuuito gente está/estava animada também. Mas agora eu meio que desanimei. Adoro demais efeitos especiais (afinal, o filme é uma arte visual em si), mas quando o roteiro é ruim não tem como perdoar 🙁
    De qualquer forma, adorei a resenha!

    Beijos, Ju!
    http://naosepreocupecomisso.blogspot.com.br/

    25 de abril de 2017 às 22:50
    • Responder Marcela Fabreti

      Mesmo com subtítulo MUITO RUIM, vamos combinar, hahaha. Mas o filme, na questão de cenário/roupa/efeitos especiais é LINDO, a galera trabalhou muito bem. A vontade é até deixar o filme rodando no mudo pra trama ruim não atrapalhar o visual bonito.

      16 de junho de 2017 às 21:18
  • Responder Bruna Gomes

    Estou louca para ver esse filme. Eu joguei o jogo e é maravilhoso. Sua resenha me deixou ainda mais curiosa para ver o filme!

    Já Aos 20?

    20 de junho de 2017 às 17:06
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