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“Estrelas Além do Tempo” prova que Hollywood ainda tem um longo caminho a percorrer

Ainda não falei disso aqui no blog, mas esse ano eu finalmente tomei coragem para fazer uma Maratona do Oscar. Sempre tive vontade, mas também sempre mosquei e, quando via, o Oscar tinha passado e eu nem sabia quais filmes estavam concorrendo (do Oscar do ano passado, por exemplo, eu vi uns 3 e olhe lá).

Esse ano rolou toda uma organização, me deu até orgulho. Tô com toda a lista de indicados anotada e organizada, dando check nos que já vi e me programando para conseguir ver os outros. Isso porque meu plano é ver literalmente todos os 60 títulos que receberam indicações. Modéstia à parte, eu acho que estou indo até que bem, estou quase na metade e aproveitando as férias do escritório pra isso.

Outro desafio é decidir como eu vou trazer essa Maratona aqui pro blog, porque sem condições de eu resenhar sessenta filmes, curtas e documentários por aqui né? Mas pra Estrelas Além do Tempo eu precisei abrir uma exceção.

Na resenha de A Chegada eu disse que estava desapontada com a imagem que o filme tentou passar colocando China e Rússia como os “vilões” da história. Pois quanto mais eu via os indicados desse ano, mais eu enxergava os padrões políticos e sociais por trás dos indicados. Lembram do micão do Oscar passado, com a absoluta ausência de indicações de atores e diretores negros? Pois os indicados desse ano estão aqui para provar que tudo não passou de um grande engano. Os Estados Unidos amam as pessoas negras. Sempre amaram. Eles são uma nação pacífica que nunca teve espaço para racismo, machismo ou violência.

E esse é o grande defeito do filme Estrelas Além do Tempo, que em inglês tem o título muito mais adequado de Hidden Figures.

Reprodução

O filme merece todo o mérito por nos apresentar uma história bem pouco conhecida: a de três mulheres negras que lutaram e superaram todas as dificuldades da década de 60 – época em que as pessoas negras ainda tinham lugares separados no ônibus, eram proibidos de frequentar a maioria das lojas e locais públicos e mesmo de beber do mesmo bebedouro que as pessoas brancas, além de serem menosprezados e hostilizados em tempo integral por toda a sociedade. Elas, pelo próprio mérito e esforço, conseguiram escalar a hierarquia extremamente opressiva da NASA e perpetuar seus nomes na Corrida Espacial, dividindo as glórias de colocarem o primeiro americano no espaço.

A protagonista, Katherine, trabalhava como um “computador humano” até ser necessária no Space Task Group, por ser simplesmente imbatível nos cálculos de rota, aterrissagem, lançamento, a coisa toda. Mary Jackson (Janelle Monae maravilhosa) é uma aspirante a engenheira, incapaz de se candidatar à vaga que não aceita nem mulheres e nem pessoas negras. Por último, Dorothy é a pseudo-supervisora (porque supervisoras de verdade não podem ser negras) da equipe de “computadores de cor”, todo um time de mulheres negras que faz o trabalho pesado de cálculo. Ela é tão boa com máquinas que seria capaz de fazer uma torradeira tocar jazz, se quisesse.

Vocês conseguem imaginar que, numa época definida por segregação, onde linchamentos públicos aconteciam normalmente, o caminho até o objetivo – no caso: ter voz junto aos matemáticos do programa espacial, ser contratada como engenheira e virar uma supervisora de verdade, impedindo que tanto ela quanto toda a equipe sejam substituídas por uma máquina potente – seria simplesmente infernal. Mas aqui, nesse filme, ele é só bem difícil.

Pesquisando mais sobre o livro no qual Estrelas Além do Tempo foi inspirado, eu descobri (através deste artigo aqui) que havia, sim, um alto número de mulheres e de pessoas negras trabalhando na NASA, mas isso não quer dizer que qualquer um dos “computadores coloridos” tinha mais respeito lá dentro do que nas ruas do país.

Reprodução

O filme, que deveria tratar sobre racismo e machismo, tem pouco ou nada de qualquer um dos dois. Katherine convive com o desdém dos colegas de trabalho e com a dificuldade de precisar atravessar o complexo da NASA para poder usar o banheiro, mas em momento algum existe violência ou agressividade contra qualquer uma das três. A única frase expressivamente machista parte de um personagem negro, e toda a situação é resolvida com um pedido de desculpas. O massivo elenco de homens brancos, por sua vez, é quase todo apoio.

A vitória sobre o racismo também se dá de uma maneira quase mágica de tão simples, tudo isso pelo gigantesco esforço Hollywoodiano de mostrar o quanto a segregação da década de 60 e o racismo contemporâneo não passam de um erro de interpretação. Afinal de contas, os EUA amam pessoas negras.

Isso tudo entra em contraste com os demais indicados ao Oscar (por exemplo, o sensacional documentário A 13ª Emenda, que mostra as coisas como elas realmente aconteceram) e, infelizmente, rouba um pouco do brilho do filme. Mas não se deixem enganar, Estrelas Além do Tempo continua sendo um filme bom e uma produção excelente, que nos apresenta personagens históricos que, infelizmente, poucos de nós ouviram falar sobre.

E também não me entendam errado: eu sei que uma guerra não se vence sozinha. Não dá pra vencer o machismo e racismo sem alguns homens brancos comprando a causa. Mas todos eles ali estavam simplesmente ansiosos para abraçar o talento inegável de uma mulher negra. No fim do dia, a gente fica com a impressão de que o verdadeiro herói da história foi o chefe do Space Task, o típico personagem homem/caucasiano/de meia-idade que é usado quase como super-trunfo, justamente por não ter nenhum dos preconceitos que moviam a sociedade daquela época. Consequentemente, a gente não consegue vencer a impressão de que na vida real não era bem assim que acontecia.

É bem triste dizer que o defeito de Estrelas Além do Tempo é ser otimista demais. Mas algumas pessoas viram isso como uma qualidade, dizendo que o filme não apelava para o vitimismo.

Hollywood tentando nos convencer de que o racismo enraizado no coração dos americanos foi vencido com o simples derrubar de uma placa de banheiro é convincente como um lobo em pele de cordeiro. O lado bom disso tudo é que, além de já termos um vislumbre de como queremos que as coisas sejam, também conseguimos ver todo o longo caminho que o cinema (e a mente) americana tem pela frente. E, felizmente, temos toda a politicagem do Oscar desse ano para enfiar o dedo na ferida, e não deixar o público se enganar com imagens bonitas de superação.

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47 Comentários

  • Responder Aline Amorim

    Ainda não assisti o filme. A história parece ser muito boa, mesmo que a realidade seja um pouco “maquiada”.

    24 de Fevereiro de 2017 às 13:34
    • Responder Marcela Fabreti

      Sim, é boa mesmo! Vale a pena ver o filme e correr atrás do que aconteceu de verdade. Fiquei interessada em ler o livro, inclusive.

      21 de Abril de 2017 às 20:39
  • Responder Stephanie Ferreira

    Eu ainda não vi o filme, mas a sua resenha está sensacional Cela! Eu não gosto dessa mania ridicula de Hollywood tenta transformar lutas e causas tão importantes em algo leve, como se o que aconteceu por lá, toda a segregação fosse coisa mínima porque não foi.

    28 de Fevereiro de 2017 às 12:12
    • Responder Marcela Fabreti

      Exato, mas eles estão muito mais preocupados em mostrar que são legais do que em mostrar os babacas que eles foram no passado (e continuam sendo). Mas um dia eles aprendem que essa palhaçada não cola mais com a gente, hue.

      21 de Abril de 2017 às 20:40
  • Responder Nath

    Quero muito ver esse filme! Parece ser ótimo e eu adoro filmes políticos e históricos! Ja vi vários sobre a segregação racial nos EUA. Sua resenha ficou ótima!

    3 de Março de 2017 às 07:06
    • Responder Marcela Fabreti

      Obrigada, Nath! Espero que goste do filme. ❤️

      21 de Abril de 2017 às 20:40
  • Responder Maria Carolina Bordallo Lowen

    Eu fiquei apaixonada por esse filme! Sério!! E eu percebi várias vezes o racismo, naquela funcionária loira que não queria contrar ela pra ser supervisora e no chefe da outra menina lá, que não deixava ela ter crédito por nada. Acho que poderia ter sido mais explorado? Sim, mas não achei que foi pouco.

    30 de Março de 2017 às 09:12
    • Responder Marcela Fabreti

      Eles focaram toda a carga em um ou dois personagens, escolheram os “vilões” pra passar uma parte da mensagem. Na melhor das hipóteses, foi um bom primeiro passo. 🙂

      21 de Abril de 2017 às 20:42
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