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Crônicas

Too many friends

Reprodução / Freedom, on We Heart It

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O vento brincava com seu corpo. Não era o primeiro, mas era o mais gentil. Ele a balançava lentamente, de um lado para o outro como que a tendo tirado para dançar.

Ela não sabia que horas eram, mas era tarde. Ela não deveria estar ali, mas estava. Ela não deveria ter feito muitas coisas que fizera. Os sapatos caros de saltos altos estavam abandonados ali do lado, quase misturados na escuridão e no concreto. O pelo falso da jaqueta roubada ia de um lado para o outro, ora pela insegurança de seus movimentos, ora pelo vento que se divertia às suas custas.

Ela não deveria estar ali, mas os seguranças da ronda da madrugada ficavam entediados com facilidade, e não diriam “não” à uma garota bêbada e bonita que lhes fizesse alguns favores. Eles eram dois, e não haviam sido gentis com seu corpo como o vento era, e ela não queria ter feito o que fez. Eles sujaram sua roupa e arruinaram sua maquiagem, e não se importaram quando ela começou a chorar. No fim, eles lhe devolveram a garrafa de conhaque e ela se agachou para pegar o vidro de comprimidos que havia derrubado, e eles reativaram o elevador que ia para o espaço aberto na cobertura para que ela pudesse subir sozinha.

Agora, ela se equilibrava com dificuldade na beirada do edifício, cantando num inglês errado uma música do Placebo, a garrafa meio vazia firme na mão de unhas perfeitas. Ela andava para frente e para trás como uma equilibrista em um circo de pessoas que não tinham mais para onde ir. Os soluços meio bêbados, meio chorados, interrompendo a música a cada verso.

Ela havia perdido sua bolsa em algum canto da cidade, dentro dela havia o celular, a carteira com o cachê recebido pelo desfile daquela noite, as fotos polaroid da festa que acontecera depois, no apartamento de um homem rico, para onde ela não quisera ir, mas fora. Ela não queria beber, mas bebera, não queria rir, mas rira. Ela também não queria transar com o dono do apartamento, mas ele não havia perguntado antes de leva-la para o quarto, e também não havia se importado quando ela começara a chorar. Ela não queria voltar para a festa com o rosto inchado e o cabelo desarrumado, porque as amigas ririam dela, então ela se trancou no banheiro e refez a maquiagem. Depois disso, ela aceitou todas as bebidas, os comprimidos e as carreiras de cocaína que colocaram na sua frente.

Não era a primeira vez que nada daquilo acontecia, e parte dela já havia se acostumado. Ela precisava jogar de acordo com as regras do jogo da vida que ela sempre sonhara em ter, e às vezes isso significava beber até esquecer que você precisava transar com o dono da festa se quisesse ser convidada de novo, ou chupar o segurança de um show se quisesse conhecer o camarim da banda.

O namorado dela não se importava. Ele gostava dela e do silicone que ele a havia convencido a colocar. Ele também se preocupava com sua carreira, afinal de contas fora ele que a colocara em uma passarela pela primeira vez, e em uma after party de uma banda famosa. Também foi ele quem colocou a primeira carreira de cocaína na sua frente e uma nota de cinquenta dólares enrolada na sua mão, quando ela teve a primeira crise de pânico. Ele também não era gentil com seu corpo, mas ele dizia que a amava, e seu tom de voz era gentil o suficiente para que ela acreditasse. E, quando ele se desculpava por ter batido nela, ele realmente parecia arrependido, então ela dizia que estava tudo bem.

Sua melhor amiga a achava muito dramática. Ela achava que para ter sucesso na vida era preciso agarrar as oportunidades com unhas e dentes, e sair com as pessoas certas. Foi ela quem lhe contou que se você transasse com o dono da festa você seria convidada de novo, e que se você chupasse o vocalista, logo não precisaria se importar com o segurança do camarim. Foi ela quem colocou o primeiro punhado de comprimidos coloridos em sua mão, antes de um desfile realmente importante, que “ela não poderia estragar de jeito nenhum, ou nós duas estaremos na rua no fim da noite”, e a mandou engolir todos de uma vez, foi ela quem a ensinou que se você vomitasse depois das refeições não precisaria fazer dieta.

Nem o namorado nem a amiga sabiam onde ela estava naquela noite. Pra ser sincero, nem ela sabia, e nenhum dos três se importava. Ela usava o parapeito de um edifício de trinta andares como uma passarela, e sorria para as estrelas como se elas fossem os flashes das câmeras. Quando ela caiu, não sabia se os sons ao redor eram gritos ou aplausos, e as luzes das janelas de repente viraram holofotes, e todos em Nova York agora estavam olhando para ela, e sua foto estava estampada em todos os jornais e revistas importantes por aí. Todos os seus amigos agora falavam coisas bonitas sobre ela, e seu namorado chorava, e sua melhor amiga chorava, e eles dois foram embora juntos no fim do dia, e transaram na cama em que ela costumava dormir.

E no fim daquele mês ninguém mais falava dela, ou lembrava dela, ou se importava com o que tinha acontecido. E em algum canto da cidade, uma amiga colocava, pela primeira vez, um punhado de comprimidos coloridos nas mãos da outra e a mandava engolir todos de uma vez, porque, nessa vida, se você quiser ser alguém importante, você precisa agarrar todas as oportunidades com unhas e dentes, e sair com as pessoas certas.

(Eu a conheci por três nomes diferentes, e há tantos outros que eu ainda não ouvi…)

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7 Comentários

  • Responder Amanda

    Que texto genial e intenso! Gostei muito mesmo, fiquei completamente presa às palavras!
    Beijos!
    Blog Amanda Hillerman

    10 de fevereiro de 2016 às 19:50
  • Responder Ruh Dias

    Apenas uma palavra: UAU.
    Ruh Dias
    perplexidadesilencio.blogspot.com

    12 de fevereiro de 2016 às 01:34
  • Responder Marcela Fabreti de Oliveira

    Ai, que bom que gostou! Muito obrigada <3

    12 de fevereiro de 2016 às 02:13
  • Responder Sarah Santos

    Caraca que texto! Faz pensar muito, sério. Realmente deixar de ser quem você é, para se tornar quem querem que você seja; deixar que modulem você como bem entendem, ou que determinem suas ações; é o mesmo que morrer. Não é vida isso! Mas tem gente que suporta o insuportável, na esperança de que as coisas mudem e venham a ser melhores… A doce ilusão é quem sentencia algumas almas…
    Blog Riscoculto

    18 de fevereiro de 2016 às 22:40
  • Responder Marcela Fabreti de Oliveira

    Obrigada, Ruh <3

    19 de fevereiro de 2016 às 02:32
  • Responder Marcela Fabreti de Oliveira

    Eu nem tenho que responder num comentário como esse, você pegou a ideia e a essência da coisa tão bem que fiquei até triste, rs.

    19 de fevereiro de 2016 às 02:37
  • Responder Sarah Santos

    Isso só aconteceu porque a forma como você escreveu foi maravilhosa! Eu estou apaixonada por esse blog, mulher! *-*
    Tem uma fã ♥

    26 de fevereiro de 2016 às 23:24
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