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Alguns pontos importantes sobre Os 8 Odiados.

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Vou começar dizendo que essa não é uma resenha propriamente dita. Dessa forma, ao mesmo tempo que pode conter alguns spoilers, eu não conto absolutamente nada do que acontece em cena. Isso aqui é a maneira como eu interpretei o que vi, numa tentativa meio entortada de traduzir em texto e tentar dividir com vocês a minha opinião. Eu recomendo que vocês vejam – sobretudo, que vocês reflitam sobre o filme primeiro, antes de ler esse texto. Mas é claro que vocês podem ler e interagir com o post primeiro, para depois ver o filme e comparar as duas coisas. A decisão é de vocês.

Agora imaginem que Quentin Tarantino entra em um bar, se ajeita num dos bancos altos na frente do balcão, pede uma cerveja e, depois de um pouco de conversa fiada, te conta um causo.

De verdade, se Os 8 Odiados pode ser resumido em uma única palavra, seria essa: causo.

É uma história curta e direta, inserida em um filme de mais de duas horas, que tem como único objetivo colocar você contra quem você quer defender. Isso porque ninguém lá é digno de defesa, e o filme foi planejado de forma a te impedir de tentar gostar de alguém.

Se quiserem a minha opinião, é isso o que faz o filme ser genial.

E eu pessoalmente estou achando bastante engraçadas as críticas contra o filme e a militância em prol de lados separados. O filme é um dado de 8 faces, todas elas sujas de sangue. Qualquer personagem ali é tão ruim quanto o próximo da fila ou o anterior.

Separando os personagens pelo que eles representam, nós temos:

  • Quatro homens caucasianos padrão: o xerife, o carrasco, o vaqueiro e o caçador de recompensas;
  • Uma mulher;
  • Um negro;
  • Um mexicano;
  • Um idoso;

E, se você está acostumado a escolher seu personagem favorito e defendê-lo até o fim da história, Os 8 Odiados vai ser o fim da linha pra você, meu chapa. Isso porque você não se sente (ou pelo menos não deveria se sentir) confortável defendendo qualquer um deles, a não ser que consiga fechar os olhos e ignorar solenemente tudo o que o filme está passando.

Sim, você pode dizer que o ponto fraco do filme é a violência contra a mulher, o racismo contra o negro, a xenofobia contra o mexicano ou a crueldade contra um homem velho – mas, para fazer isso, você precisará ter sangue frio para ignorar o fato de que o seu protegido é tão ruim quanto aqueles que o ameaçam.

Honestamente, eu não me sentiria confortável defendendo Daisy Domergue, sabendo que ela era a causa e a organizadora de todo aquele derramamento de sangue. Assim como eu não me sentiria confortável defendendo Major Marquis depois de saber o que ele fez com o filho do velho homem. Eu também não seria capaz de defender o velho, depois de ouvir suas histórias sobre a guerra e sua opinião pessoal. O tempo todo, o filme te pergunta:

Você defenderia um monstro de outros monstros iguais à ele?

O mais aterrorizante sobre o filme é como todos os personagens refletem bem a psique humana. Todo mundo aí fora é um pouco odiado e, se você tentar defender alguém cegamente, quem provavelmente vai terminar decepcionado (ou, no caso do filme, morto) é você. Então, se o causo do Tarantino tem alguma moral no fim, seria essa: não defenda nada, nem ninguém, cegamente. Ninguém é só o mocinho ou só o vilão, não existe isso de bom e mau, e todo mundo tem o sangue de alguém no bico das botas.

O Xerife talvez seja um dos personagens mais interessantes. A personificação da lei e da ordem só tomou a decisão justa porque aquilo o afetava pessoalmente. Eu não vou te punir porque você causou a morte de várias pessoas; eu vou te punir porque você me viu quase tomar veneno, e você não fez nada para me ajudar. A questão aqui não é a ordem social, a questão aqui somos você e eu.

Cada diálogo do filme conta. Cada palavra tem impacto e uma razão por trás, e eu vi nesse filme uma das melhores reflexões sobre “justiça” de todos os tempos, algo que a faculdade de Direito nunca teve culhões para me contar.

Os Oito Odiados não está aqui para te deixar incomodado com um ou outro personagem. Está aqui para te deixar incomodado consigo mesmo. E muita gente vai odiar o filme e o diretor por causa disso.

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5 Comentários

  • Responder Ana Claudia P. Lima

    Que crítica fantástica!
    Sério, de todas a que eu li, a sua me fez querer mesmo ver o filme.
    Não tenho muita paciência com o Tarantino, porque tenho problema de foco e os filmes são muito longos.
    Mas você me fez querer mesmo ver o filme. (Falei 2 vezes pra enfatizar).
    🙂

    3 de Fevereiro de 2016 às 13:11
  • Responder Victória Cardoso Ferreira

    Pior que lendo sua postagem até ficaria com vontade de ver o filme, mas já assisti e ainda não estou bem certa se gostei ou não, e justamente por isso: todos os personagens são odiosos. No Bastardos Inglórios é legal ver os judeus colocando as suásticas na testa do nazista, no Death Proof as mulheres dando um pau no homem psicopata lá… Mas esse aí todos são horríveis! Não dá pra criar empatia com nenhum personagem. Mas olha, realmente concordo com você e todos os pontos foram muuuuuuuito bem salientados.

    Beijos, Vickawaii
    http://finding-neverland.zip.net

    6 de Fevereiro de 2016 às 01:55
  • Responder Clayci

    Perdão, mas a única coisa que eu consegui ver no filme foi a fotografia e a forma que foi filmado rs.. Não me apeguei a personagens pq estamos falamos de tarantino =P

    http://www.saidaminhalente.com

    8 de Fevereiro de 2016 às 20:30
  • Responder Marcela Fabreti de Oliveira

    Caramba, Ana, que legal! Muito obrigada, fico muito feliz mesmo! 😀 😀 😀
    Haha, admito que a longa duração dos filmes dele podem realmente ser um problema pra muita gente. Nesse caso acho que dá mais certo ver em casa, né? Que aí a gente pausa, faz outra coisa, depois volta a assistir de onde parou.

    9 de Fevereiro de 2016 às 17:18
  • Responder Marcela Fabreti de Oliveira

    Fico feliz por ter gostado! <3 Acho que esse foi o filme mais "foda-se tudo e todos" do Tarantino até agora, é bem engraçado mesmo você não conseguir pegar empatia com nenhum personagem, nem que só um pouquinho, hahaha.

    9 de Fevereiro de 2016 às 17:20
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