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[12 Meses de Poe] Fevereiro: O Demônio da Perversidade

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Atrasei o post mais do que eu gostaria. A ideia era postar essa resenha dia 1º, mas a vida não tem função câmera lenta e só agora consegui sentar a bunda na cadeira com calma e escrever sobre esse conto. Mas o que vale é a intenção, né gente? Heheh. Por um lado, é vergonhoso que eu tenha demorado tanto para ler e analisar um conto de apenas 4 páginas. Por outro lado, tem MUITA coisa nessas quatro páginas, vocês não fazem nem ideia.

O Demônio da Perversidade é, muito mais do que uma crônica, um insight. Antes do parágrafo final da história, eu a tomei inteiramente como uma nota de rodapé. Eu, inclusive, conseguia imaginar o Poe tentando organizar pensamentos em palavras e depois tentando fazer com que as palavras fizessem sentido não só para ele, porque um insight é algo que vai tão rápido quanto vem, e se pelo menos um resquício da ideia não for agarrado assim que surgir, talvez ela nunca mais apareça tão clara quanto da primeira vez e, por mais que você tente elaborar, nunca se sentirá realmente satisfeito.

Então, durante quatro páginas, Poe mastiga e experimenta uma sensação, uma ideia, um fato, e às vezes essas quatro páginas parecem quarenta, porque a ideia é densa e, o melhor de tudo: ela faz sentido para você. É como se ele tivesse capturado um insight que você já teve, mas não conseguiu perceber a tempo. Honestamente, eu acho impossível que alguém aquinão veja sentido nas palavras do autor, e não tenha se identificado com sua linha de pensamento. Isso porque ele reflete sobre algo tão comum, mais tão comum, que talvez nenhum de nós tenha parado para refletir sobre isso à sério.

Por que nos colocamos em risco de maneira consciente? Por que, por mais importante que seja, não conseguimos guardar um segredo por muito tempo? Por que o proibido é tão atraente e, sobretudo, por que procrastinamos até o último minuto, sabendo sem nenhuma dúvida que estamos nos prejudicando e que não teremos como correr atrás depois e, mesmo assim, tentamos compensar pelo tempo perdido quando já é tarde demais? É como se, em queda livre para dentro de um precipício, olhássemos para cima e víssemos a raiz de uma planta, e pensássemos “se eu me agarrasse à ela, não teria caído”. Mas pensar nisso não adianta nada, essa agora é uma informação inútil, porque já estamos caindo há muito tempo e não nos agarramos à planta no momento certo.

O que mais pode ser isso, essa sensação, esse auto boicote, do que uma presença demoníaca na personalidade do ser humano? Do que uma perversidade inerente à nossa espécie? Nós gostamos de arriscar, mesmo quando sabemos que vamos perder. É como o prazer sádico de jogar roleta russa com uma arma quase inteiramente carregada, tendo apenas uma chance de sobrevivermos.

Os últimos parágrafos guardam uma surpresa deliciosa, pois é quando a tese vira conto, e o narrador, que até então acreditávamos ser o próprio Poe, vira personagem. Quem nos conta a história é um homem condenado. Toda essa reflexão ocorrera no silêncio de uma cela de prisão habitada pelo homem que, após cometer o crime perfeito, sucumbe à tentação da perversidade que existe dentro de si, condenando-se porque o segredo era bom demais, grande demais para ser guardado, e a ideia de colocar-se em um grande risco, quando tudo indicava que ele estava seguro, era perversa demais para ser resistida.

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4 Comentários

  • Responder Juliana C

    Eu ainda tô me acostumando ao estilo do Poe, mas achei esse conto simplesmente sensacional <3
    No começo ainda tava meio "do que ele tá falando?", mas assim que comecei a perceber fez todo sentido. Eu sempre me achei meio doida por ter algumas ideias autodestrutivas, mas me senti muito aliviada de saber que a culpa não é minha e sim do Demônio da Perversidade hahahaha

    Beijos!

    3 de Março de 2016 às 23:43
  • Responder Marcela Fabreti de Oliveira

    Não é muito legal quando você tá lendo um autor famoso/mega antigo e você pensa "meu deus, ele me entende!"? Mas vou confessar que também achei bem complicado no começo, tanto que um dia comecei a ler e parei porque precisava de um momento mais de boa para fazer isso (e não no meio da aula, hue). Também li em português direto, ao invés de ler o original e a tradução. É realmente um texto que você precisa pegar no tranco pra entender a ideia, mas valeu muito a pena!

    4 de Março de 2016 às 00:23
  • Responder A Bela, não a Fera

    Bem minha cara amar o Poe, né?!
    Trabalho sempre O Retrato Oval com os alunos da 7º série. Enquanto leio, eles ficam com medinho HSUIHAUISHUIAHS
    |‎Document Your Life | Fevereiro 2016 |
    | A Bela, não a Fera |
    | FB Page A Bela, não a Fera|

    5 de Março de 2016 às 18:24
  • Responder Ana Bonfim

    Poe <3

    22 de Março de 2016 às 22:16
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