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Neverwhere, de Neil Gaiman – o livro e a série!

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Neil Gaiman é, definitivamente, um dos meus autores favoritos, e não apenas pelo trabalho maravilhoso que ele fez com Sandman. É bastante difícil definir suas obras com um adjetivo que não seja “mágico”, mas eu diria que ele trabalha muito bem na linha do “achei que era uma história de criança e estava completamente errado” (o que as mães que levaram os filhos pequenos para assistir a adaptação de Coraline no cinema comprovam).

Ele tem essa receita infalível de fazer um adulto se sentir criança e ainda sair satisfeito com a leitura. Ainda que a trama não seja das mais complexas, você termina o livro com o coração quentinho. De repente, pela primeira vez em décadas, você volta a se perguntar se fadas, universos paralelos, reinos mágicos e criaturas fantásticas talvez não existam de verdade, e essa sensação é incrível.

Inclusive, é exatamente sobre isso que Lugar Nenhum fala.

Eu comprei esse livro vários meses atrás, num passeio descompromissado pela Livraria Cultura numa tarde livre. Não sabia coisa alguma sobre a história, mas a gente nunca precisa pensar muito com os autores que gostamos. A leitura foi bastante leve e prazerosa e, apesar de eu não considerá-la nenhuma grande obra dele, fiquei feliz por ter lido e isso já valeu o investimento. A grande surpresa, na verdade, foi quando comecei a fazer essa resenha. Como sempre, joguei o título no Google para pegar nomes que eu não lembrava e outros detalhes mais técnicos, e eis que eu descubro que, antes de ser livro, Neverwhere foi uma minissérie de seis episódios escrita pelo Gaiman e produzida pela BBC em 1996. E como se não fosse o suficiente, descobri que Peter Capaldi estava todo jovenzinho no elenco.

Lógico que fui obrigada a pausar a resenha até que eu assistisse, em dois dias (que poderiam muito bem ter sido um dia só, se o sono de ontem não tivesse falado mais alto), toda a série. E isso foi uma experiência bastante interessante pra mim, porque eu era a primeira a criticar essa tendência “atual” de escrever livros baseados em séries ou filmes já lançados e de sucesso. Certo que dessa vez a história de ambos pertence à uma pessoa só, e tudo aquilo foi realmente ideia do Gaiman, mas Neverwhere me jogou uma luz nova nesse assunto, e agora eu acho que não torço tanto o nariz para esse tipo de adaptação.

Sendo uma série de vinte anos atrás, já dá pra imaginar que não é aquele show de efeitos especiais e atuação – não digo que os atores são ruins, mas que nossos padrões mudaram muito. Eu aposto que a série foi super bem recebida na época. Eu gostei especialmente da abertura, por me lembrar muito as capas de Sandman e de outros livros do autor.

Pra mim, a sensação de vê-la hoje foi a mesma de ter revisto Labirinto, do David Bowie, uns dois anos atrás.  Agora, mesmo sendo antiga e praticamente sem efeitos especiais, ver a série depois de ler o livro foi muito legal, porque, como o livro foi inspirado na série, a série pra mim foi realmente fiel ao livro… Deu pra entender isso aí que eu falei? hehe. Digamos que, quando um livro é inspirado em um filme ou série, a minha recomendação seria ler primeiro e assistir depois, porque aí você sai satisfeito como sempre quis sair do cinema depois de assistir a adaptação de um livro.

Em ambas as mídias as falas são as mesmas, e a gente sabe como é incrível quando eles mantêm as falas dos personagens em uma adaptação. O livro tem pouca ou nenhuma mudança significativa da história, ele no máximo elabora mais alguns acontecimentos, e eu aposto que todas essas mudanças foram feitas porque, vendo a série em andamento, Neil Gaiman pensou que talvez fosse melhor se tal coisa acontecesse de um jeito diferente e decidiu experimentar. As batalhas também são muito mais empolgantes no livro, e muitas partes fizeram mais sentido do que na série pela falta de efeitos especiais.

A história fala sobre Richard (Richard-Richard Mayhew-Dick), que provavelmente é o maior homem comum do mundo, o rei dos caras normais sem nada a acrescentar. Ele tem um apartamento mais ou menos, um emprego mais ou menos e um noivado mais ou menos com uma mulher que ele mais ou menos ama. Ele tem medos comuns e objetivos comuns, e dificilmente vai defender seu ponto de vista ou seus princípios se alguém colocá-lo contra a parede. Em resumo: ele é um protagonista pouco ou nada promissor.

Isso muda quando, a caminho de um jantar muito importante com o chefe de sua noiva, Richard encontra uma garota caída e ensanguentada na rua e, ignorando as ameaças de Jessica, ele a leva para sua casa para tentar ajudá-la. Mais tarde ele descobre que essa garota se chama Door, e que ela está sendo perseguida por Mr. Croup e Mr. Vandemar, dois homens perigosos que se parecem com uma raposa e um lobo, e que decididamente não têm boas intenções.

Richard também conhece o Marquês de Carabás, velho amigo da família de “Lady” Door, que promete protegê-la e em quem ela confia, apesar de seu comportamento extremamente peculiar e individualista. Percebendo que a garota está segura, Dick está mais do que pronto para dar o assunto por encerrado e voltar para sua vidinha normal, inclusive tentando resgatar seu relacionamento com Jessica… O problema é que ninguém mais em Londres consegue vê-lo e, se consegue, imediatamente se esquece de que o viu. Sua única forma de descobrir o que está acontecendo é tentar encontrar Door novamente, e descobrir onde é o Mercado em que ela estaria à procura de um guarda-costas.

Dessa forma, ele descobre que existe uma outra Londres, abaixo da que ele conhece, onde moradores de rua e criaturas mágicas vivem. Ele também descobre que uma pessoa não pode pertencer às duas Londres, e que uma vez que você interaja com alguém da “Londres de baixo”, os moradores da “Londres de cima” não vão mais te reconhecer. Richard conhece pessoas que falam com ratos (que são criaturinhas muito importantes na Londres de baixo), um homem que fala com pássaros, pessoas que comercializam coisas encontradas nos esgotos e mulheres bonitas que se alimentam do calor de outras pessoas.

Sem um lar para onde voltar e sem saber andar sozinho por este novo mundo, ele se vê obrigado a acompanhar Door, o Marquês e Hunter – a maior caçadora e guarda-costas de todos os tempos, em uma aventura perigosa para encontrar o anjo Islington (interpretado por um Peter Capaldi novinho e cabeludo), quem, Door acredita, é a única pessoa que poderá desvendar o misterioso assassinato de toda a sua família.

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Eu imagino o quão essa história deve ser divertida para um morador de Londres, porque todas as coisas mágicas da Londres de baixo também existem na Londres de cima. Richard tenta de todas as formas argumentar que não existe realmente um anjo chamado Islington (afinal, “The Angel, Islington” não seria mais do que um ponto turístico), da mesma forma como não existem Black Fryars na Estação Black Fryars e nem Sheperds na Estação Sheperds. Ele também descobre que a mensagem de “mind the gap” nos metrôs não existe à toa, e que desobedecê-la pode ser muito perigoso.

A história, como eu já disse, é uma aventura bastante agradável e simples. Durante a leitura eu talvez tenha ficado um pouco desapontada com alguns plotholes – detalhes importantes que ficaram sem explicação ou que não foram bem elaborados, mas, de alguma forma, sabendo que o livro foi inspirado na série, isso não me incomodou mais. Algumas partes são extremamente divertidas, e o Marquês de Carabás tem umas tiradas tão boas que ele virou meu personagem favorito em ambas as mídias. As cenas de luta são bem ruinzinhas na série, mas no livro tão bastante descritivas e violentas. O livro também adicionou algumas explicações e mais drama à coisas que na série não fizeram muito sentido. Lógico que, se eu for recomendar uma delas, será o livro, até porque eu não sei se é fácil encontrar essa série legendada por aí (e o sotaque deles é tão carregado quanto a BBC consegue fazer), e porque não é todo mundo que vai ter paciência pra assistir. Agora, se você estiver com um humor leve, um coração nostálgico e um dia livre, e quiser ver o nosso querido Capaldão novinho e bem longe da TARDIS, vai ser um passatempo divertido. Fica a recomendação, espero que gostem! 🙂

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8 Comentários

  • Responder Poly

    Só conheço Neil Gaiman por Sandman mesmo, mas fiquei bastante interessada. Gostaria de conhecer coisas diferentes do autor e sua resenha tão positiva me fez desejar muito isso rs
    Obrigada pela recomendação.
    Bjuxxxxx

    23 de Abril de 2016 às 02:24
  • Responder Juliana C

    Por enquanto só tive uma experiência com os livros do Neil Gaiman, mas eu já amei <3
    Li "O Oceano no Fim do Caminho" e me senti exatamente como você descreveu no início desse post. Adorei entrar no mundo mágico que ele criou e ao mesmo tempo que me senti criança de novo, também consegui apreciar aquela história de uma maneira mais adulta.

    Eu comecei a ler "Lugar Nenhum" e estava gostando, não me lembro por que parei 🙁
    Mas quero retomar a leitura, adoro histórias que têm mundos paralelos!
    E nem tinha ideia que havia sido baseado numa série. Talvez eu procure pra ver depois que finalizar a leitura. Gosto de ter visões e interpretações diferentes de uma mesma história.

    Beijos!

    24 de Abril de 2016 às 16:21
  • Responder Marcela Fabreti de Oliveira

    A minha curiosidade pelo autor nasceu em Sandman, mas todas as obras dele tem esse ar mágico que a gente conhece tão bem na HQ. A minha favorita dele, até agora, é O Oceano no Fim do Caminho, que eu recomendo sem medo nenhum! Mas eu mesma li relativamente pouca coisa do autor, a minha ideia mesmo é ler tudo dele que eu conseguir achar!

    26 de Abril de 2016 às 01:03
  • Responder Marcela Fabreti de Oliveira

    O Oceano no Fim do Caminho é minha obra favorita dele, pelo menos até agora! É um livro tão querido, eu fiquei tão triste quando ele acabou! E estou planejando relê-lo muito em breve!
    E volte a ler Lugar Nenhum sim! Espero que goste do livro e da série, se resolver se arriscar e assistir, hehehe. <3

    26 de Abril de 2016 às 01:21
  • Responder Maeve Shídhe

    Ahhhhhh,alguém que me entende!! O Neil Gaiman também é um dos meus autores favoritos e quando vou indicá-lo pra alguém eu simplesmente não consigo descrever quão mágicos são os livros dele e nem acho que essa palavra descreva exatamente o sentimento. Muito bom saber que não sou a única que se sente assim com essas obras maravilhosas <3 Lugar Nenhum foi o primeiro livro do Gaiman que eu li e até hoje é um dos meus favoritos. Também adorei a série, mesmo sem muito efeito especial ela é toda sombria e mágica, bem ao estilo Gaiman hehe Espero que sua resenha incentive mais leitores a conhecer o mundo incrível desse autor *-*

    Beijoss
    Maeve

    http://fadamoderna.com

    26 de Abril de 2016 às 19:49
  • Responder Ruh Dias

    FINALMENTE alguém fez um post sobre isso! Caraca Má, vc é a mina!
    Capaldão todo novo e pimposo numa série de Neil Gaiman, só aí já é puro amor. Tanto o livro quanto a série estão nas minhas pendências de to-read e to-see faz séculos, mas sempre acabo passando outra série ou outro livro na frente – eu sei, é um absurdo eu passar coisas na frente do tio Gaiman, mas acontece.
    Mas lendo aqui senti a urgência e a necessidade de priorizar ambos.

    Obrigada!

    Bjs,
    Ruh Dias
    perplexidadesilencio.blogspot.com

    26 de Abril de 2016 às 19:49
  • Responder Marcela Fabreti de Oliveira

    Yey! Fico feliz que o post te inspirou a ler/ver em breve! Confia que vale a pena, é amor puro, hahaha <3 E liga não, eu também passei vááários livros na frente dele, tadinho. Sem falar que eu comecei a ler meio cabreira porque tinha visto umas resenhas bem negativas – mas pra mim isso é tudo falta de magia no coração, hehehe.

    3 de Maio de 2016 às 01:25
  • Responder Marcela Fabreti de Oliveira

    Hahaha eu também espero! E eu não tenho palavras para descrever o quanto eu amo essa sensação que os livros dele trazem. Só tem amor envolvido <3

    3 de Maio de 2016 às 01:29
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