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Diário de Leitura: Lendo Os Miseráveis #1 e #2

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Só pelo bem da ambientação, acho importante dizer que, antes de começar esse texto, eu encarei a tela em branco por uns longos cinco minutos, organizei umas coisas na cabeça, respirei bem fundo, suspirei e disse “vamos lá”.

Como vocês bem lembram (e, se não lembrarem, podem ler nesse post aqui), eu entrei de cabeça na leitura coletiva do livro Os Miseráveis, do sempre brilhante Victor Hugo. Comecei quase que com uma semana inteira de atraso e sem nenhuma expectativa de ficar em dia com o projeto. Considerando que ficaria atrasada na leitura pra sempre, tinha comentado que, talvez, fizesse uma resenha do livro inteiro depois que terminasse, sabe lá Deus quando.

Aí, assim do nada, eu fiquei em dia.

Não foi um negócio planejado, eu simplesmente fui lendo e lendo, às vezes alternando entre o outro livro (incrível) que já estava lendo antes disso, terminando muitos dias com aquele prazer curioso de quem, de madrugada, percebe que não ligou o computador e nem checou a caixa de e-mails, porque ficou com a cara enfiada no livro desde que acordou. Aí, agora há pouco, meio de repente, eu virei a página e percebi que já tinha cumprido a “cota” semanal do desafio. Achei digno dar um parecer da leitura até agora por aqui.

Esse livro está acabando comigo.

Felizmente pra mim, já tinha sido apresentada ao autor anos antes, através de O Corcunda de Notre-Dame, livro muito menor e que até hoje me acerta na boca do estômago de vez em quando. Esse livro, de certa forma, me deixou um tiquinho mais preparada para a leitura atual, porque a proposta e estilo de escrita do autor permanecem as mesmas, e eu estou pisando em terreno não tão desconhecido. Em outras palavras, eu consigo dizer, mais ou menos, onde estão as pedras em que eu obviamente vou tropeçar, porque não tem outro jeito. Digo com segurança que ter lido O Corcunda me deixou muito mais emocionalmente preparada do que ter vindo (várias e várias e várias vezes) o musical d’Os Miseráveis, porque é absolutamente outro mundo. Ainda que eu saiba o que vai acontecer com os personagens e, de novo, ainda que as surpresas não me peguem tão de surpresa assim, não muda nada. Isso porque o objetivo de Victor Hugo nunca foi pegar o leitor de surpresa – muito pelo contrário: ele escreve de forma a te deixar agoniado, porque você sabe de tudo e os personagens não sabem de nada. Então você sabe como todas as grandes desgraças foram causadas por coisas ínfimas, e teriam sido solucionadas por coisas ainda menores. Você tem esse conhecimento, eles não, então você os vê sofrendo e seu rumo de vida mudando por conta de banalidades, e ele faz questão de que você mantenha isso em mente sempre.

Uma pessoa que está sentada em vez de estar de pé; os destinos às vezes dependem disso.”

Mas vamos do começo:

O livro começa contando a história de Monsenhor Bienvenu, o homem é quase que a única árvore que ainda dá frutos em um jardim todo ressecado. Ele é bom simplesmente por ser bom e por acreditar em Deus; na verdade, ele é tão bom que em muitos momentos me causou desconfiança. Sua forma calculada de doar muito e propositalmente viver com pouco me foi tão estranha, principalmente num romance como esse, em que eu sabia que ninguém estava a salvo da torpeza ou da má sorte, que durante boa parte do começo do livro eu fiquei esperando o baque, o cair da máscara e o desapontamento de que o Bispo não era um homem tão bom assim… O baque não veio. Esse tipo de bondade ainda existia no livro. Aliás, uma coisa interessante sobre os personagens de Victor Hugo: se essa bondade existe no livro, então eu tenho plena confiança de que também existe na vida real. Simples assim.

Como se vê, o bispo tinha um singular e particular modo de encarar as coisas. Desconfio que tenha tirado isso do Evangelho.”

O homem não é perfeito, sua bondade é quase um vício, mas quem tem coragem de condenar um vício desses? Sua única falha (se é que podemos chamar assim) o pega até mesmo de surpresa, quando percebe um mísero resquício de vaidade ao conversar com um personagem chamado G. O bispo reconhece essa emoção, a estuda, aprende com ela e imediatamente a expurga, mantendo consigo apenas a lição aprendida. E, como uma árvore que dá frutos, sua bondade não morrerá consigo por conta dos já conhecidos castiçais de prata e de Jean Valjean.

Jean Valjean não é um herói, não é nem um homem acima da média. Ele é um homem comum, medíocre, como todos os outros homens que lutam para viver e para manter viva sua família. Não há muito espaço para grandes feitos quando seu maior problema é ter o que comer. Sua transição de homem para fera é dolorosamente bem escrita. Sua redenção nos preenche tanto quanto a ele mesmo.

As cidades produzem homens ferozes, porque produzem homens corruptos. A montanha, o mar, a floresta, produzem homens selvagens; desenvolvem o lado feroz, mas frequentemente não destroem o lado humano.”

A partir do Livro III, que começa a segunda semana da leitura coletiva, somos introduzidos com a maestria típica do autor ao ano de 1817 e todos os seus acontecimentos relevantes, ou não, para a história, isso para que nos sintamos ainda mais imersos na leitura. Não sei vocês, mas eu adoro essas descrições políticas e sociais sempre temperadas com a ironia ponderada de Victor Hugo. Somos também apresentados à Fantine.

Fantine, loira, bela, tola, com sua cota de futilidade e mediocridade, assim como todos os outros seres humanos, e saboreando o primeiro amor de sua vida, que ela, obviamente, acredita feliz e eterno. Nós, por outro lado, não demoramos a saber que seu amante não pensa o mesmo. Acompanhamos as delícias de um dia de verão e passeios entre Fantine e suas três amigas, também costureiras, cada qual com seu amante: rapazes ricos, esnobes e teoricamente cultos e -não me surpreende- estudantes de Direito.

Poderia eu criticar a futilidade dos rapazes sem criticar o vazio interior das mulheres? Acredito que não. Só o que pude fazer foi lamentar por Fantine, que ainda era jovem e deslumbrada e, diferente das outras, ainda tratava com preciosidade os próprios sentimentos, não se tornando mais do que uma presa e uma brincadeira na mão de alguém mais velho e mais malicioso. Dessa forma, ao fim da noite, ela foi a única a chorar o abandono, principalmente porque, jamais tendo recusado qualquer coisa ao seu amor, fora abandonada para sempre com uma filha pequena, por quem seu amante nunca se importara (me pergunto até se ele sabia da existência de Cosette).

Toda a história de Fantine deixou meu coração em pedaços. Ela, assim como Esmeralda em O Corcunda de Notre-Dame, foi vítima do acaso, do descaso, da falta de informação e da malícia alheia. E eu, mais uma vez, fui obrigada a ver um personagem sofrer sabendo que terminar aquele sofrimento seria coisa muito simples. Apenas vá falar com o prefeito, Fantine… Mas não, as coisas nunca são assim tão simples.

Os personagens de Victor Hugo são estereotipados e quase caricaturais, ao mesmo tempo em que representam com uma fidelidade terrível uma pessoa, uma classe social e uma nação inteira. Sendo assim, Fantine é todas as mulheres exploradas e injustiçadas do mundo inteiro.

O que é essa história de Fantine? É a sociedade comprando uma escrava.
De quem? Da miséria.
Da fome, do frio, do isolamento, do abandono, da privação. Dolorosa negociação. Uma alma por um pedaço de pão. A miséria oferece, a sociedade aceita.
A sagrada lei de Cristo governa a nossa civilização, mas ainda não a impregnou. Dizem que a escravidão desapareceu da civilização europeia: é um erro. Existe ainda, mas não pesa senão sobre a mulher, e chama-se prostituição.”

Conhecemos Javert, conhecemos os Thénardier e o prefeito Pai Madeleine (o único homem, além de um certo condenado foragido, que Javert já viu ser capaz de erguer um peso tão grande nas costas…), e todos eles, de alguma forma, quase sem querer e apesar de boas intenções (menos os Thénardier, que não sabem o que são boas intenções) e do senso de justiça, contribuíram para a miséria de Fantine. Nesse livro, eles orbitam em torno da garota, desgraçando-a cada vez mais. Todos esses novos personagens são imensamente importantes, e com certeza aparecerão mais e mais no decorrer da história, mas, independente deles, esta parte da história é de Fantine e, por ela, é impossível não chorar.

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2 Comentários

  • Responder Maria Eduarda {@dudsparrow}

    Li esse livro há muitos anos atrás, me marcou muito e eu simplesmente não tenho coragem de ler de novo 🙁 Ótima resenha, os personagens são incríveis mesmo.
    boa semana 🙂

    Red Behavior

    18 de janeiro de 2016 às 15:56
  • Responder Marcela Fabreti de Oliveira

    Nossa, eu tô há uns 3 dias sem ler pra tirar o peso do peito, tô criando coragem pra pegar no livro de novo, hahaha.

    19 de janeiro de 2016 às 13:27
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