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Condenada, de Chuck Palahniuk

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A narrativa de Chuck Palahniuk é, para dizer o mínimo, única. Se você já leu Clube da Luta, ou um de seus contos, por exemplo (eu recomendo Vísceras, se você for maior de idade e tiver estômago forte), então sabe do que eu estou falando.

Cada palavra é praticamente rasgada no papel, com o objetivo de entreter e incomodar ao mesmo tempo. Ele é um dos poucos autores que consegue, ao mesmo tempo, fazer o leitor rir e se sentir péssimo por estar rindo – e é isso o que ele faz durante as duzentas páginas de Condenada.

A história de Madison é inteiramente trabalhada em humor negro, em críticas indiscretas e na deliciosa paródia de Breakfast Club, ou O Clube dos Cinco, filme que a própria protagonista não cansa de citar, principalmente por estar vivendo a versão infernal do “filme favorito de todos”

Ela é a única filha natural de um casal de bilionários ex-hippies, ex-punks, ex-anarquistas que dividem o tempo entre adotar órfãos de países desconhecidos, participar de eventos de gala polvilhados de paparazzi e ensinar a filha pré-adolescente que sexo, drogas e rock and roll é o estilo de vida que uma garota de treze anos deveria seguir (Madison, você tem certeza que não quer um Xanax?).

Sendo Madison não só a protagonista, mas também a narradora, nós temos o prazer de desfrutar de seu ponto de vista extremamente rico (afinal de contas, ela pode ter treze anos e estar morta, mas ela não é burra, e não vai perder oportunidade de te lembrar disso) no decorrer da história que, curiosamente, começa com sua morte e sua condenação ao quinto dos infernos, depois do que pareceu uma overdose de maconha. É lá que ela conhecerá o nerd, o punk, a princesa e o jogador de futebol que, junto com ela, formarão a versão condenada de Breakfast Club.

O funcionamento do Inferno é, de certa forma, fascinante. Não é porque você está morta que não precisará trabalhar para pagar sua estadia. Este grupo, por mais improvável que seja, vai passar o tempo explorando as áreas infernais (que são tão infantis quanto você consegue imaginar. O Oceano de Esperma Desperdiçado? Quantos anos você tem, Palahniuk? Treze?), vencendo demônios de maneiras inusitadas e proibidas para menores (meus cumprimentos ao Rei Lagarto) e, é claro, trabalhando como atendentes de telemarketing.

Vamos lá, você sempre soube que aqueles desgraçados que te ligavam na hora do jantar oferecendo alguma promoção ridícula estavam bem fundo no inferno.

Mas esse não é o único emprego disponível por lá. Afinal de contas, de onde você acha que vem aquele pornô doente da deep web? Pois é, meu amigo, todos eles estão mortos e condenados, mas todos pagam as contas e recebem um salário honesto, pago em… doces. Jamais subestime o poder de suborno de um Kit-Kat, é assim que a gente lida com os grandes burocratas demoníacos neste livro.

Madison é uma ótima protagonista de treze anos, que, escrita por Palahniuk não parece nem madura e nem infantil demais. Ela tem insights ótimos, e sua narrativa não é cansativa. Em seu raciocínio maduro, porém com curto tempo de vida, ela chega à conclusão que seu verdadeiro pecado é o vício em esperança, ainda que ela tenha quase certeza que o que a matou foi a maconha – afinal de contas, uma das regras da casa é que toda a esperança deve ser abandonada, certo?

Em sua estadia infernal, Madison encontra-se fiel, mantendo conversas mentais com a única entidade que possivelmente ouviria uma oração no Inferno: Satã em pessoa… Ou em demônio, vai saber. Cada capítulo começa com uma de suas “orações”, tanto resumindo seus dias quanto oferecendo-lhes conselhos gratuitos sobre como melhorar a administração do local – e, claro, esperando ansiosamente pelo dia em que eles se encontrarão de verdade.

Com o passar dos dias eternos, o grupo ganha intimidade e trabalha bem junto, construindo lentamente a ascensão de Madison como Suprema Dominante do Inferno. E, embora eu ache que neste ponto a história tenha se perdido um pouco, eu preciso admitir que Hitler eventualmente precisaria ser derrotado lá embaixo, sua dignidade e bigodes roubados por uma menina de treze anos.

A história tem, sim, algumas reviravoltas bastante inesperadas, tanto na causa mortis de Madison quanto em quem seus amigos realmente são (essa provavelmente foi minha parte favorita do livro, quando todos poderão voltar ao mundo dos vivos durante o Halloween, desde que estejam fantasiados como quem eram em vida). Isso tudo, é claro, coroado pela explicação de como e por quê as coisas acontecem com Madison da forma que acontecem. Um requinte de O Mundo de Sofia infernal que só descobriremos se é verdade na continuação do livro: Maldita, que eu mal posso esperar para começar a ler.

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Nome: Damned (Condenada)
Idioma: Inglês
Autor: Chuck Palahniuk
Páginas: 247
Editora: Anchor Books
Ano: 2011
ISBN: 978-0-307-95045-1
Nota: 7,0/10

Sinopse: “Are you there, Satan? It’s me, Madison”, declares the whip-tongued thirteen-year-old narrator of Damned. The daughter of a narcissistic film star and a billionaire, Madison is abandoned at her Swiss boarding scholl over Christmas, while her parents are off touting their new projects and adopting more orphans. She dies over the holiday of a marijuana overdose – and the net thing she knows, she’s in Hell. Madison shares her cell with a motley crew of young sinners that is almost too good to be true: a cheerleader, a jock, a nerd, and a punk rocker, united by fate to form the six-feet-under version of everyone’s favorite detention movie.

 

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7 Comentários

  • Responder Clayci

    Aquele pequeno orgulho quando entro nesse pequeno site… melhor sensação auiahuhauihauihai
    Eu só queria dizer que achei o livro divertido e que quero ler ..
    PS: Pra quem trabalhou com telemarketing na terra pode se livrar dessa função no inferno ou eles seguem o currículo? ahuhauihauihauiha

    15 de outubro de 2016 às 11:49
    • Responder Marcela Fabreti

      Olha amiga, pelo que eu entendi só existe telemarketing no inferno, viu? Vai ver teu chefe era um demônio e você nem percebeu, HAHAHAHAHA.

      16 de outubro de 2016 às 15:36
  • Responder Thaynara

    Nossa, achei muito interessante essa história. Sou bem da medrosa para ler livros que falam do inferno e tal. Mas, esse parece uma sátira interessante e que, de certa forma, faz críticas evidentes do nosso estilo de vida, não? Vou buscar ler!

    17 de outubro de 2016 às 08:54
    • Responder Marcela Fabreti

      É exatamente isso! Condenada, além de ser mega cômico, é extremamente crítico (mas de um jeito tão despojado que ninguém sai ofendido). E definitivamente não tem nada de assustador no livro, então eu acho que você vai gostar bastante! 😀

      17 de outubro de 2016 às 21:39
  • Responder Ruh Dias

    Primeiramente, eu sei que já elogiei antes, mas não custa reforçar (afinal, elogios caem bem no estômago de qualquer um): o novo layout do blog ficou muito bom. A leitura ficou mais agradável, a grade da Home ficou mais organizada, o gatunicórnio é puro amor e você continua mandando bem nos posts.

    Agora, sobre este livro: depois de ler Clube da Luta, eu tinha prometido a mim mesma que não leria Palahniuk de novo. Não tinha curtido o jeito dele de descrever as coisas, me causava um desconforto. Mas agora lendo a resenha deste, puxa vida, fiquei curiosa, e acho que é porque me lembrou Belas Maldições do Gaiman, sabe. Quem sabe não dou uma chance ao Chuck no futuro.

    Beijos
    Ruh Dias
    perplexidadesilencio.blogspot.com

    24 de outubro de 2016 às 15:57
    • Responder Marcela Fabreti

      Hahaha, muito obrigada, Ruh!
      Eu entendo que você não tenha curtido a escrita do Palahniuk, ele tem um jeitão bem incomum (e meio impróprio) mesmo. Pensando agora, eu o imagino meio que como um Tarantino da literatura, porque o estilo dele é meio escrachado e ácido e não é todo mundo que curte – inclusive, em Condenada, eu mesma me perguntava como eu tinha coragem de ler o livro, apesar de no final ter curtido a experiência, HAHAHA.
      Não conheço Belas Maldições, mas te garanto que o estilo do Gaiman é muito mais nobre que o do Chuck!

      24 de outubro de 2016 às 18:46
      • Responder Ruh Dias

        Tua comparação dele com Tarantino foi P E R F E I T A

        25 de outubro de 2016 às 10:07

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