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[BEDA] #4: 12 Meses de Poe – Revelação Mesmeriana

Além de uma aventura, o BEDA é ótimo para algumas coisas, como ficar em dia com os projetos atrasados do blog! Até o fim do mês, todos os contos do projeto 12 Meses de Poe de maio até agosto serão resenhados e, com sorte, voltarei também com o projeto Lendo Sandman.

Reprodução

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O conto (que deveria ter sido resenhado em maio e não foi porque a vida tava bem loka) chama-se Revelação Mesmeriana, referindo-se à técnica mesmérica de magnetização, ou, em outras palavras, hipnose. Ele é uma prova concreta de que os interesses e capacidades criativas do autor vão além de terror, investigação e mistério. O conto, que tem oito páginas, é quase inteiramente em formato de entrevista, com perguntas feitas pelo narrador-personagem, um médico adepto ao tratamento mesmeriano, e respostas dada pelo Sr. Vankirk, um paciente que recorreu à técnica para curar-se da tísica – tuberculose pulmonar que levou a esposa do autor.

Aqui, mais do que sobrenatural, temos muito deixado à imaginação, pois Vankirk, uma vez em transe, desencadeia um vasto conhecimento do mundo, do homem e, sobretudo, de Deus. Toda essa clareza de raciocínio se perde em tempos despertos, o que nos faz crer que o indivíduo magnetizado tem uma gigantesca expansão de compreensão do mundo.

O Deus do conto não é o Deus da Bíblia, embora seja citado pelo magnetizado com infinita devoção – trata-se aqui de uma visão mais filosófica de Deus, abordado sob um ponto de vista metafísico. Há toda uma reflexão sobre o que, na verdade, é Deus, e quão próximo o homem está de atingir o mesmo estado.

É feita a sugestão de que “desvestido do  invólucro corpóreo, o homem seria Deus”,  e o que nos diferencia de entidades divinas e angélicas é o próprio corpo, material e individual. No entanto, o hipnotizado nos conta que tal conquista jamais aconteceria, pois a morte não seria mais do que uma metamorfose, que transforma o corpo rudimentar do homem em uma criação completa.

Também descobrimos que, talvez, o transe da hipnose seja o mais próximo da morte que um ser vivo consiga chegar – e isso agrada o paciente, que sabe que está perto de morrer.

O conto, que foi publicado em 1844, também sugere a existência de “outros seres rudimentares pensantes além do homem“, momento no qual Vankirk contempla a imensidão do Universo, com suas incontáveis estrelas, galáxias e planetas desconhecidos e inimagináveis para o homem, dando como exemplo, inclusive, a ideia de habitantes em Vênus.

E, para a surpresa do médico, ao fim de tão curiosa entrevista, Vankirk encontra-se em um estado avançado da morte. Ainda que estivesse conversando claramente poucos minutos atrás, o fim do transe lhe desencadeou um estado de rigidez do corpo particular de alguém que estivesse morto há várias horas, o que faz o hipnotizador perguntar-se se o doente estaria comunicando-se com ele do além, ou, como ele se referia, da vida derradeira.

Muito mais do que terror ou ficção científica, o conto aborda uma questão espiritual muito à frente do tempo de sua publicação. Poe não fala sobre aliens ou sobre assombrações, mas sim sobre entidades espirituais avançadas e desconhecidas, limites mentais expandidos, um ponto de vista filosófico e quase científico sobre o que é divino. Definitivamente uma leitura interessante para adeptos da Nova Era e de teorias mais elaboradas sobre o que a mente humana ainda não compreende.

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8 Comentários

  • Responder Ruh Dias

    Preciso ler este conto, pareceu sensacional! Gosto quando os autores brincam desse jeito com a noção de espiritual e metafísico, saindo do religioso e indo para algo mais profundo e filosófico. E curti também o conceito da hipnose.

    Ruh Dias
    perplexidadesilencio.blogspot.com

    5 de agosto de 2016 às 23:55
  • Responder Cíntia de Melo

    Cela: "mas sim sobre entidades espirituais avançadas e desconhecidas", que loucura
    Uma vez li um livro da minha mae com esse tema e eu fiquei bem abalada ahhahha

    5 de agosto de 2016 às 23:55
  • Responder Carol Naves

    Vim aqui achando que leria uma resenha de um conto que já tinha lido e eis a surpresa: Eu ainda não li! Que coisa mais gostosinha <3
    Achei I-N-C-R-I-V-E-L e complexo, bem o meu tipo de história (mind-blowing)
    Vou procurar ler logo, logo! Só 8 páginazinhas, vai rápido 😛
    Bjoo
    Nerd de Pijama

    5 de agosto de 2016 às 23:55
  • Responder Mareska

    Acho que só li um conto dele até hoje =O se não me engano, a editora Darkside tem uma coletânea dele em ebook!

    5 de agosto de 2016 às 23:55
  • Responder Marcela Fabreti de Oliveira

    Não lembro se já tem ou se iam lançar, mas tenho certeza que os contos do Poe estão na lista da Darkside! Leia assim que puder, porque vale muito a pena!

    8 de agosto de 2016 às 01:15
  • Responder Marcela Fabreti de Oliveira

    Cara, quando eu comecei o 12 Meses de Poe eu tava crente que já tinha lido todos os contos antes, mas é a coisa maaaais gostosa do mundo descobrir um ou outro que ainda não li! E eu achei MUITO mind-blowing, até pros padrões do Poe… O que me lembra que tenho a coletânea do Lovecraft aqui só esperando ser amada *O*

    8 de agosto de 2016 às 01:18
  • Responder Marcela Fabreti de Oliveira

    Nossa, é muito louco, uma pegada meio espírita, não sei. Só sei que fiquei bem UAAAAAU também, hahahaha.

    8 de agosto de 2016 às 01:19
  • Responder Marcela Fabreti de Oliveira

    Siim! Esse conto teve uma pegada meio espírita, só que um negócio mais elaborado, acho até difícil de explicar. É o tipo de conto que eu obrigo as pessoas a ler pra discutir comigo depois <3

    8 de agosto de 2016 às 01:20
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