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[BEDA] #16: 12 Meses de Poe – O Escaravelho de Ouro

Você provavelmente brincou de pirata quando era criança. Desenhou complicados mapas do tesouro, inventou códigos e histórias elaboradas, marcou o número de passos por risquinhos pela folha (geralmente dando várias e várias voltas desnecessárias) e marcou o local do tesouro enterrado com um X ou uma caveira com dois ossos cruzados embaixo. Isso sem falar em todas as bandeiras piratas que você desenhou na sua vida, de todos os tamanhos e estilos – todas incrivelmente tortas, mas o que vale é a intenção, até porque você era um pirata valente e temido, não importa o quão desajeitada a bandeira fosse.

Reprodução / Pinterest

Reprodução / Pinterest

Em um dos primeiros posts do projeto, eu disse que, por mais que atualmente as narrativas pareçam simples ou clichês, estávamos falando do homem que inventou a maioria delas. Imagine então a minha surpresa ao perceber que O Escaravelho de Ouro não se tratava de uma história de terror e mistério, mas de uma aventura de piratas com um tesouro enterrado.

Ainda que não tenha sido ele o inventor de histórias do tema, não tenho dúvidas de que ele foi um dos autores vanguardistas, e que muitos dos clichês da trama (como a caveira indicando o tesouro no mapa) talvez tenham se originado com esta história.

Acredito que este tenha sido o conto mais longo lido até agora (seguindo o roteiro estabelecido pelo Projeto), e sem dúvidas foi o que mais me divertiu. Temos novamente um médico como narrador-personagem, mas a história gira em torno de seu amigo Legrand, um jovem talentoso, excêntrico e que vive isolado em uma ilhota não muito distante da cidade. Um de seus muitos interesses é o estudo e a coleção de insetos, motivo pelo qual, durante uma visita do protagonista no único dia realmente frio do ano, o personagem estava eufórico. Isto porque, durante uma de suas andanças, acompanhado de seu cachorro Wolf e de Júpiter, um velho escravo alforriado que se recusou a deixar de servir a família de Legrand, ele se deparou com um escaravelho nunca antes visto. Não apenas sua carapaça, mas seu corpo inteiro era de um dourado reluzente. Isso, somado ao peso anormal da criatura, fez Júpiter acreditar que se tratava de um inseto de ouro vivo.

É a primeira vez que eu vejo Poe trabalhando com um alívio cômico, e o ex-escravo com certeza fez bem o papel – isso se levarmos em consideração a época e não nos ofendermos pela realidade da escravidão e sua forte presença na literatura antiga. Júpiter não é um palhaço, muito menos um personagem mal construído – ele é espirituoso, e sua comunicação é bem humorada, o que dá um ar diferente ao conto.

Durante o desenvolvimento da história, somos levados à acreditar que andamos pelo terreno conhecido de uma de suas histórias de terror, isso porque a personalidade do jovem muda drasticamente desde a descoberta do inseto. Júpiter acredita que ele tenha sido mordido pelo escaravelho, e que o veneno do inseto o esteja enlouquecendo.

No entanto, no decorrer das páginas, descobrimos que o escaravelho dourado não passa de um coadjuvante, e definitivamente não é o seu veneno ou sua cor que mudaram tanto assim o jovem Legrand.

Uma série de acasos muito bem amarrados entre si o fez descobrir-se possuidor de um mapa do tesouro que pertenceu à um famoso pirata, e sua curiosidade excêntrica o fez capaz de decodificá-lo, descobrindo assim a localização de um tesouro quase incalculável.

Aqui, nos vemos divididos: ficamos esperando, acreditando que a qualquer momento algo misterioso e terrível vá acontecer. Nos perguntamos se o tesouro é assombrado, se o escaravelho é de qualquer forma místico, se os personagens enfrentarão um final terrível. Ao mesmo tempo, nos sentimos tão eufóricos quanto eles próprios, porque sabemos que se trata de uma aventura de piratas (e a pior coisa que dá pra acontecer em uma aventura de piratas é você ter que andar na prancha ou ser amarrado à uma bala de canhão).

Eu preciso ressaltar o quanto toda a história é coerente. Não importa o quão fantasiosa ou improvável (lembranças carinhosas da Rua Morgue) a história seja, Edgar Allan Poe não dá ponto sem nó, e todos os detalhes de suas histórias fazem sentido. No final, não há perguntas não respondidas, e todos os mistérios são exaustivamente solucionados (inclusive recebemos uma bela aula sobre decodificação de textos).

Esse conto também trás uma ótima notícia: não foram poucas as vezes que recebi comentários sobre a história e/ou o autor dizendo “parece muito bom, mas eu morro de medo de histórias de terror”. Se este for o seu caso, O Escaravelho de Ouro é o conto perfeito pra você. A leitura é prazerosa, rápida e leve, e te deixa com uma nostalgia gostosa das brincadeiras de pirata.

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