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[BEDA] #11: A Menina Submersa – Memórias

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Ok, este é, oficialmente, o livro mais difícil de resenhar que eu já li na vida, parabéns por isso, Darkside.

Eu li esse livro meses atrás, e já perdi a conta de quantas resenhas sobre ele não foram rascunhadas e descartadas. As primeiras foram diretamente deletadas ou jogadas no lixo, e as mais recentes foram transformadas em bolinhas de papel e atiradas pro meu gato (que tem alma de cachorro e, inclusive, traz de volta para que eu lance-as cada vez mais longe).

A Menina Submersa é um livro intenso, envolvente e, por vezes, sufocante. É descritivo a ponto de ser cristalino, você tem imagens perfeitas dentro da sua mente enquanto lê e, sinceramente, eu acredito que as imagens que eu criei para esta história sejam quase iguais às suas, tamanha a clareza de cada cena.

A nitidez da narrativa é, inclusive, bastante incongruente com a sua narradora: Imp é esquizofrênica, e não há nada claro dentro da sua cabeça.

Eu não posso dizer que entendo como funciona a mente e a alma de alguém com esquizofrenia, mas, se eu precisar chutar, diria que Caitlín acertou na mosca. A história toda acontece em um ritmo de corda bamba, que nos faz imaginar em quais momentos Imp está bem e em quais não está. Nos perguntamos quais partes de suas histórias são reais e, como velhos amigos, nos sentimos tentados a cutucá-la: “Imp, você tomou os remédios hoje? ”.

O livro precisou de muito pouco para me conquistar, isso porque eu e Imp temos vários interesses em comum, como o estudo das versões originais dos contos de fadas (embora Imp seja muito mais dedicada do que eu no tema). Por curiosidade, eu sou realmente fã do conto da Chapeuzinho Vermelho, e nunca dei muita bola para a Pequena Sereia. Acredito que eu e Imp teríamos muito o que conversar. No entanto, provavelmente porque era Imp a contar a história, a Sereia me atraiu muito mais do que a Loba. A Eva da noite de verão me pareceu muito mais atraente e maliciosa, dona de uma inteligência afiada, quase má, e de uma personalidade cruel e divertida. Ela enlouquece Imp para mostrá-la algo que as pessoas sãs jamais acreditariam – porque a sanidade é algo frágil demais para suportar a verdade.

Qualquer um enlouqueceria ao ouvir o canto de uma sereia, mas a já enlouquecida Imp é a única pessoa capaz de compreendê-lo.

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Confesso que a única coisa que eu mudaria na história, se pudesse, seria a realidade. Eu sei que não deveria confiar em Imp, mas eu confio. Eu acredito nela quando ela me diz o que viu, e para mim este é o problema. Acredito que eu teria gostado mais dos momentos finais do livro se o realismo mágico tivesse se mantido implícito, subjetivo, deixado para a imaginação…. No entanto, talvez tudo seja realmente fruto da imaginação de Imp. Acredito que nós nunca descobriremos. Meses depois de ter lido, eu sinto carinho até pelos detalhes que, lá atrás, eu teria mudado.

Não deixe que a apresentação fantástica do livro, seja em sua capa dura e folhas rosa ou em sua versão econômica, te engane. No momento em que você se afunda na história, você consegue ver o livro em suas mãos pelo que ele realmente é: um diário. Grande e desorganizado. Com folhas de diversas cores e tamanhos, dobradas e enfiadas entre as páginas, mementos pregados às páginas, flores secas esquecidas entre anotações vagas, desenhos, histórias rascunhadas e rabiscadas, o tipo de obra caótica que faria Imp sentir-se em casa. Ler este livro é invadir a privacidade de uma mente irrequieta e surrupiar detalhes de sua intimidade. É o tipo de livro para se ler sozinho, quase como se estivéssemos fazendo algo proibido.

O livro nos apresenta histórias (fascinantes) dentro de histórias, e está repleto de personagens femininas fortes pelas quais nós ficamos gratos. Caitlín colocou no centro do palco características e personalidades que quase não são vistas na mídia, e as deixou naturais, corretas, humanas. Ela usou apenas personagens marcadas por estereótipos fortes, e nenhuma delas é estereotipada.

O capítulo sete, a única aparição da Eva Loba, a Eva da noite de inverno, selvagem e nua na neve, foi o meu favorito – seguido muito de perto pelas crônicas que Imp escrevia. São páginas e páginas de terror e sufoco, de paranoia, de rosnados e dentes à mostra, de uma fome predatória. É a doença de Imp em sua forma mais ameaçadora, ilustrada pelo conto de fadas que mais a aterrorizava. Tome os remédios, Imp.

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Título: A Menina Submersa (memórias)
Título original: The Drowning Girl
Autora: Caitlín A. Kiernan
Editora: Darkside Books
Ano: 2015
Páginas: 317
ISBN: 978-85-66636-25-3
Nota: 8,0/10,0

Sinopse: “Vou escrever uma história de fantasmas agora”, ela datilografou.
Esta é a história de India Morgan Phelps. Não se assuste: é um livro dentro de um livro, e a incoerência uma isca para uma viagem mais profunda, na qual Caitlín R. Kiernan se aproxima de grandes nomes como Edgar Allan Poe e H.P. Lovecraft, que enxergaram o terror em um universo simples e trivial – na rua ao lado ou nas plácidas águas escuras do rio que passa perto de casa -, e sabem que o medo real nos habita. A Menina Submersa é como um canto de sereia, que nos hipnotiza até que tenhamos virado a última página, e fica conosco para sempre.

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10 Comentários

  • Responder Bruna WB

    Nossa, nunca tinha ouvido falar nesse livro (minha lista tá tão grande que eu tenho medo de procurar, sabe?). Pela sua resenha, parece ser original. Me interessei bastante; eu adoro ler e aprender sobre diferentes coisas, então livros com temas mais "profundos" chamam muito a minha atenção. To até pensando em deixar esse furar a fila, haha.
    Obrigada por compartilhar. 🙂
    Beijos,
    Bru
    http://www.moderando.com

    12 de agosto de 2016 às 22:10
    • Responder Marcela Fabreti

      “Minha lista tá tão grande que eu tenho medo de procurar” MENINA EU TE ENTENDO TÃO BEM ❤️ Mas pra você ver como não tem jeito, né? Quando a gente para de procurar os livros começam a praticamente cair no nosso colo e pipocar pra todo lado, que nem esse post aqui, HAHAHAH.
      Depois me conta se gostou 😀

      12 de outubro de 2016 às 17:48
  • Responder Ruh Dias

    No começo, eu me deixei enganar pela sinopse – muito equivocada, na minha opinião – que me prometeu um livro de fantasia. Talvez, por isso, pela minha expectativa errada, no início eu fiquei muito relutante com a estória da Imp.
    Depois de um tempinho, antes de chegar na metade do livro, me dei conta de que eu tinha diante de mim um livro muito mais complexo e profundo e, plim!, passei a amá-lo. Como psicóloga, achei que a Caitlin escreveu de um jeito belíssimo sobre os surtos esquizofrênicos, poético e sem os estereótipos científicos que anulam a indentidade das pessoas. É um livro incrível.

    Bjs
    Ruh Dias
    perplexidadesilencio.blogspot.com

    15 de agosto de 2016 às 21:43
    • Responder Marcela Fabreti

      O cuidado da autora com cada personagem é emocionante de verdade. Todo mundo lá é tão humano, tão sensível, tão REAL. Eu imagino o estudo que ela deve ter tido pra escrever o livro, ou se ela se baseou em algum caso real da vida dela. De qualquer forma, ela evoluiu personagens como poucas vezes eu vi em um livro. Também demorei pra pegar gosto, demorei até pra saber se gostei ou não, mas hoje em dia sou só amores.

      12 de outubro de 2016 às 17:54
  • Responder Juliana C

    Esse livro provocou diversas sensações em mim também. E se tem uma palavra que eu também usaria para descrevê-lo é sufocante. Às vezes tive que interromper a leitura porque estava tão imersa nos pensamentos desordenados de Imp que parecia ficar meio sem fôlego.
    Também tive muita dificuldade de escrever uma resenha e relendo ela hoje em dia, acho que não chega nem perto de tudo que o livro me trouxe.
    Mas eu gostei demais da sua, de verdade <3

    15 de agosto de 2016 às 21:44
    • Responder Marcela Fabreti

      Fico feliz que tenha gostado! Vou te contar que ela quase não saiu, de tão difícil que foi, HAHAHAH. E sim cara, “sufocante” é a palavra PERFEITA. Eu lembro em particular da parte da história em que ela estava na exposição e começou a passar mal, e em como ela descrevia os quadros, achei mega opressivo. É o tipo de livro que você lê um pouquinho e depois tem que abrir a janela ou dar uma volta na rua pra espairecer.

      12 de outubro de 2016 às 17:57
  • Responder Ana Bonfim

    Eu terminei de ler esse livro ontem e estou desmontada, com uma sensação que não consigo explicar. Demorei dois meses para ler e não era por falta de tempo ou porque não estava gostando, muito pelo contrário eu estava amando e não queria que terminasse. Eu não me sentia leitora, eu me sentia sendo Imp, isso mexeu profundamente comigo e eu estou meio em transe ainda, não sei nem o que falar, apenas sentir.

    http://amorticinio.blogspot.com.br/

    27 de agosto de 2016 às 01:31
    • Responder Marcela Fabreti

      Te entendo mega bem, porque comigo foi a mesma coisa. Eu devo ter passado bem uma semana digerindo a história depois de ter terminado de ler, só fui “superar” o livro mesmo depois de um bom tempo. É uma história que fica meio que grudada na nossa pele, né?

      12 de outubro de 2016 às 17:59
  • Responder Deborah Wolfgang

    Já tinha me deparado com esse livro há um tempo e ele logo entrou na minha lista, mas ainda não consegui ter meu momento com ele hahaha Fiquei interessada em parte por conta das comparações com Poe e Lovecraft, mas depois da tua resenha vi a coisa pelo lado psicológico e decidi que tenho mesmo que ler esse livro!
    Um beijo!

    19 de novembro de 2016 às 14:42
    • Responder Marcela Fabreti

      Ai, que bom! Eu espero de verdade que você goste.❤️ Depois me conta o que achou!

      21 de novembro de 2016 às 21:22

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