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A Noiva Fantasma, de Yangsze Choo

Noiva Fantasma

Certa noite, meu pai me perguntou se eu gostaria de me tornar uma noiva fantasma”.

Pensar em vida após a morte já é bastante difícil considerando apenas a cultura brasileira. Alguns de nós acreditam que a morte é o fim de tudo. Alguns acreditam que é apenas o começo; e alguns simplesmente se confortam na ideia de que um ente querido está olhando por eles de algum lugar incompreensível e mágico.

Descobrir as crenças de uma nova cultura é jogar outra luz e outros aromas em um assunto complexo por si só, e a aventura de Pan Li Lan nos apresenta não apenas um novo mundo, mas uma nova forma de ver a vida – e o que existe depois dela.

A Noiva Fantasma, um dos lançamentos do ano passado da DarkSide Books dentro do selo DarkLove – o mesmo que nos trouxe o maravilhoso Circo Mecânico Tresaulti (cuja resenha você pode ler aqui) – abraça com força e dedicação a proposta do selo e, como prometido, faz o leitor morrer de amor em mais de uma perspectiva.

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O livro é ambientado na Malaca de 1893, um pequeno Estado da Malaia (atualmente Malásia), na época colonizada pelos europeus (inclusive sendo uma ex-colônia de Portugal, ainda que pouco menos que um forte em ruínas exista para contar a história). Li Lan, nossa narradora, tem 17 anos, e sua família já esteve em melhores condições. Ainda que ela tenha escapado milagrosamente da varíola quando era um bebê, a doença levou sua mãe e desfigurou seu pai, tirando dele a vontade de viver.

A reclusão e o ópio afastaram o pai de Li Lan dos negócios e dos amigos, afundando-o em dívidas quando a fortuna do avô não era mais o suficiente para sustentá-los. A maravilhosa casa em que viviam, sempre cheia de vida, agora não recebia mais que os três criados: Amah, que cuidava de Li Lan com o mesmo afinco com que cuidara da mãe da menina em sua juventude – embora a filha seja muito menos lady-like que a mãe; o Velho Wong, cozinheiro da família, e Ah Chun, a criada, sempre morrendo de medo dos fantasmas que, ela dizia, assombravam aquela casa. Esse assunto, no entanto, era desprezado pelo pai de Li Lan, que não acreditava no plano dos mortos e nas oferendas de papel.

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Os dias de Li Lan perdem a tranquilidade quando ela é convidada para a casa da família Lim, uma das mais ricas de Malaca e antigos colegas de negócios de seu pai.

É aí que ela toma conhecimento tanto de Tian Bai quanto de Lim Tian Ching, o sobrinho e o filho do patriarca, respectivamente. Com um único detalhe: Lim Tian Ching está morto, e mesmo assim sua mãe insiste em um casamento fantasma entre ele e Li Lan, para que isso acalme seu espírito inquieto.

No fim do livro existem várias informações e curiosidades interessantes, inclusive sobre a realidade dos casamentos fantasmas, geralmente celebrados entre dois amantes mortos, ou, muito raramente, entre um morto e um vivo, tanto para apaziguar um espírito quanto para, por exemplo, elevar uma concubina morta que gerou um filho ao status de esposa, para que ela desfrute de uma pós-vida com maiores luxos. Desnecessário dizer, no entanto, que é uma celebração de mau agouro, e a proposta de casamento, ainda que tentadora, enche Li Lan de desgosto.

Lim Tian Ching passa a invadir os sonhos da menina, cobrindo-a de cortejos e ameaças em igual proporção. Tudo piora quando ele descobre o interesse dela por seu primo e rival, quem ele acusa de seu assassinato. O espírito não poupa demonstrações do poder que possui no plano dos mortos, deixando a entender que tudo se consegue com oferendas queimadas em seu nome (geralmente dinheiro de papel e origamis em forma de comida, animais e servos) e uma boa quantidade de propina aos demônios e Juízes do Inferno.

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Desesperada e privada de sono, Li Lan e Amah recorrem às artimanhas de uma médium poderosa, o que, junto com uma boa dose de impulsividade, termina por afastar a alma de Li Lan do próprio corpo, jogando-a em um coma enquanto ela vaga livremente pelo mundo dos mortos, com tempo contado até que o vínculo entre espírito e carne se rompa para sempre.

Li Lan decididamente não faz o tipo heroína, em nenhum sentido. Ela é insegura e tem pouca vivência – isso por culpa exclusiva de seu pai e da época em que ela vive, onde uma menina jamais poderia sair de casa desacompanhada. No entanto, entre crises de choro e confiança depositada em espíritos errados, ela vai evoluindo e encontrando sua própria força. Aos poucos, ela aprende a utilizar a quase-morte a seu favor, e faz o possível para solucionar, do Vale dos Mortos, o assassinato do homem que insiste em chamá-la de noiva e, sobretudo, descobrir como fazê-lo deixá-la em paz.

O além túmulo da tradição Malaca (influenciada tanto pela Chinesa quanto pela Europeia – Tian Bai, inclusive, é cristão, enquanto o pai de Li Lan é confucionista) é maravilhoso e detalhado, e a escrita de Yangsze Choo em seu primeiro livro é rica, alimentada pela própria descendência da autora.

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Toda a aventura tem um quê de A Viagem de Chihiro (e vocês sabem bem que, vindo de mim, isso é um elogio dos GRANDES), ainda que o livro seja menos fantástico que a animação. As culturas orientais possuem diversas características e personagens em comum. A ideia do dragão como realeza protetora das águas, escondido sob forma humana, por exemplo, é compartilhada pelo misticismo de países diferentes e está, inclusive, presente no livro. A autora também se inspirou em Lugar Nenhum, de Neil Gaiman (que também já foi resenhado por aqui).

Ainda que eu tenha comprado o livro exclusivamente pelo dark fantasy, preciso admitir que a dose ponderada de romance conseguiu me conquistar – principalmente porque, apesar de ligeiramente previsível (eu não consegui prever certos acontecimentos logo de cara, mas consegui sair algumas páginas na frente do livro nas revelações românticas, e ainda assim me surpreendi), o desenvolvimento é agradável e nada enfadonho, e sua conclusão me deixou absolutamente satisfeita.

O final do livro o transforma em um visitante querido que nos deixou cedo demais. Isso porque a história de Li Lan não está nem perto de acabar, ainda que tenhamos passado da última página, e eu confesso que adoraria descobrir o que aconteceu depois.

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Além de uma leitura envolvente e absolutamente prazerosa, A Noiva Fantasma conseguiu fazer o que muitos tentaram, durante anos, e falharam: me ensinou a fazer o bendito tsuru, a ave de origami. Gente, eu tento aprender isso desde a quinta série, mas acho que apenas a aventura de Li Lan me deu o gás necessário para aprender – isso e o manualzinho de instruções bem bacana que vem no livro, junto com uma série de folhas decoradas justamente para isso, mas que eu nem de longe tive coragem de arrancar.

Achei origami tão terapêutico que procurei tutoriais diferentes, e consegui aprender a fazer essas flores de cerejeira maravilhosas, que inclusive combinaram muito com a capa. ❤️ De verdade, o maior desafio é impedir que o Poe fuja com meus bichinhos de papel. Como eu adoro trabalhos manuais e paper toysacredito ter encontrado aqui um hobbie bem legal!

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De toda a minha coleção de livros da DarkSide, esse é um dos que mais merece o selo DarkLove. Eu encontrei uma amiga não apenas em Li Lan, mas em sua criadora também, com seu jeito delicado e inteligente de ligar fios e informações que, no princípio, eu nem sabia que estavam lá. O resultado final é bonito e, por que não?, mágico, e eu sou muito grata por essa magia ter sido dividida comigo.

Reprodução / DarkSide Books

Reprodução / DarkSide Books

Nome: A Noiva Fantasma
Autora: Yangsze Choo
Tradução para o português:
Editora: DarkSide Books
Ano: 2015
ISBN:

Nota: 9,0/10,0

Sinopse: “Certa noite, meu pai me perguntou se eu gostaria de me tornar uma noiva fantasma…”1893. Li Lan é uma jovem que recebeu uma educação tradicional, mas que vive sem grandes perspectivas depois da falência de seus pais. Até surgir uma proposta capaz de mudar sua vida para sempre: casar-se com o herdeiro de uma família rica e poderosa. Há apenas um detalhe: seu noivo está morto.

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20 Comentários

  • Responder Renata

    Só de ver que era uma resenha desse livro vim correndo aqui ver! rsrsrs Eu comprei há um tempinho mas ainda não consegui ler! Ele parece incrível em vários aspectos e parece super tocante, bem da maneira como você descreveu! Fora que a arte do livro, as páginas para fazer origami (que eu também jamais arrancarei!! kkk) completam todo um estilo próprio ao livro. A Dark Side tem me conquistado cada vez mais. O primeiro deles que li foi The Kiss of Deception e, super recomendo!
    Adorei sua escrita e a sua resenha! E seus tsurus! Tô duvidando um pouco que vou conseguir fazer maaas adorei as fotos que vc tirou do livro com os que fez! Ficaram lindos mesmo!
    xoxo

    25 de outubro de 2016 às 21:29
    • Responder Marcela Fabreti

      Eu estou com KoD em casa pra ler! Pago de marrenta que só gosta de livro com sangue, morte e horror, mas coloca uma fantasia + romance no meu colo pra ver se eu não rolo no chão abraçada no livro dando gritinhos ridículos. Foi tipo isso o que aconteceu com Noiva Fantasma!
      Fico feliz de verdade que tenha gostado da resenha e das fotos! Tô tentando melhorar as fotos que tiro aqui pro blog, então pra mim é mega importante que as pessoas estejam reagindo bem. ❤️ E sobre os tsurus, eu jurava que era uma negação e jamais aprenderia, mas só precisei dessa vontade a mais pra fazer as fotos pra me enfiar em tutoriais e treinar até conseguir. No Youtube tem vídeos ensinando a fazer origami de absolutamente TUDO e, honestamente, se eu consegui qualquer um consegue, HAHAHA. Espero que aproveite a leitura!

      26 de outubro de 2016 às 19:35
  • Responder Váh

    Que livro lindooo! Uma pena eu ter preguiça de ler HAHAHAHAH 🙁

    https://heyimwiththeband.blogspot.com.br/

    26 de outubro de 2016 às 14:16
    • Responder Marcela Fabreti

      QUE HORROR! Não pode, menina, vai já ler esse livro. Nada de preguiça literária por aqui.

      28 de outubro de 2016 às 23:15
  • Responder Lila Martins

    Ai que livro mara! Eu quero!!!! \o/ Amo esse tipo de literatura, acho super gostoso de ler, com as reviravoltas e aquela tensão do “Como que faz agora?” amo muito e nossa esse blog, fazia um tempo que não vinha aqui, mas você escreve muito bem, teus posts mais longos eu leio até o fim sem cansar pq são excelentes! =D

    27 de outubro de 2016 às 14:18
    • Responder Marcela Fabreti

      Cara, você falar que lê mesmo os posts longos até o fim é tipo o maior elogio que alguém como eu pode receber.❤️ Eu fico MUITO FELIZ com isso, de verdade, principalmente porque sei que muitas pessoas largam mão quando o texto é muito grande, então pra mim – que gosto de falar muito, HAHAHA – é importante ter esse tipo de feedback, porque aí eu sei o que preciso ou não melhorar no texto! Então muito obrigada, sério mesmo. ❤️

      28 de outubro de 2016 às 18:50
  • Responder Clayci

    AQUI DENTRO DO PEITO.. Eu quero pedi origamis de presente pra vc… pronto.. agora posso falar do livro.

    Eu ainda não li, mas só encontro livros elogiando a obra.
    A premissa super me prendeu – apesar do meu relacionamento com a DarkSide estar em crise – eu pretendo dar uma chance pra leitura sim.

    27 de outubro de 2016 às 17:24
    • Responder Marcela Fabreti

      A senhora sabe que quero morrer sua amiga, né? hehehe
      Amiga, perdoa a DarkSide ❤️…. Quer dizer, me pergunta de novo depois de uns dias, aí eu te digo se é pra perdoar ou não, ok? HAHAHAHAH Mas, perdoando ou não, precisamos admitir que os livros deles são maravilhosos, chega a dar raiva. ❤️

      28 de outubro de 2016 às 18:53
  • Responder Dai Castro

    A história parece ser sensacional! Essa é a primeira resenha que eu leio sobre esse livro e já fiquei super curiosa!
    A ideia de casar com alguém morto, um espírito, é no mínimo assustadora, mas eu adoro esse tema mais sobrenatural e então, o livro já entrou para a minha wishlist da darkside hahaha (mais um diga-se de passagem hahaha) Beijos!

    27 de outubro de 2016 às 23:41
    • Responder Marcela Fabreti

      Dai, eu tô assim também, minha wishlist de livros é praticamente uma wishlist da DarkSide, HAHAHAHAHA. E vou te falar que esse aqui vale a pena entrar pra lista, viu? A autora conseguiu dar toda uma aura pro livro, e ao mesmo tempo em que ela fala abertamente de demônios e espíritos ruins, em momento nenhum a gente sente medo – é BEM o feeling de A Viagem de Chihiro, sabe? É tudo mais mágico do que assustador, não importa o quão bizarras as criaturas sejam, haha. ❤️ Desnecessário dizer que recomendo de olhos fechados, né?

      28 de outubro de 2016 às 19:44
  • Responder Ruh Dias

    Primeiro: seus tsurus ficaram ótimos! Aliás, todas as fotos deste post ficaram muito boas, a sensação que dá é que você as fez com muito capricho e inspiração (deve ter sido pelo talento recém adquirido em origamis). Arrasou. Agora você pode, oficialmente, fazer origamis com seu papel de trouxa, haha.
    Depois, sobre o livro: quando comecei a ler a resenha, fiquei pensando “WTF?!”. A premissa parecia absurda demais para dar certo mas, durante o post, foi despertando meu interesse e minha vontade em ler este livro. Resenha muitíssimo bem escrita, como sempre.

    Um beijo,
    Ruh Dias
    perplexidadesilencio.blogspot.com

    31 de outubro de 2016 às 13:10
    • Responder Marcela Fabreti

      Tenho os papeis de trouxa mais bonitos da cidade, diz aí! HAHAHAHA
      Meu objetivo de vida agora é sempre fazer fotos bonitinhas dos livros que resenho, o post fica tão mais amorzinho ❤️ E muito obrigada pelos elogios, fico feliz que tenha gostado do post! 😀

      6 de novembro de 2016 às 21:59
  • Responder Juliana

    Uau, que resenha 😮
    Vou começar elogiando as fotos que ficaram lindas *-*
    Eu só sei fazer tsurus, mas já quero aprender essas flores de cerejeira, fiquei encantada com elas!
    Esse é um dos livros da Darkside que mais tenho vontade de ler, por ter uma temática tão diferente de qualquer outra coisa que eu já tenha lido.
    Adorei o clima meio sobrenatural mas sem dar medo que o livro parece ter. (Pelo acho que não dá medo e tô torcendo por isso hahaha)
    Gostei muito mesmo da sua resenha, você escreve muito bem! <3

    4 de novembro de 2016 às 15:21
    • Responder Marcela Fabreti

      YAY, que bom que gostou ❤️ eu quase desisti de fazer as flores de cerejeira, acredita? Tentei vários tutoriais que não consegui antes de encontrar esse que deu certo. Vou te contar que foi um alívio, porque elas ficaram tãããão fofinhas nas fotos!❤️ E não dá medo não, pode ficar tranquila!

      6 de novembro de 2016 às 22:03
  • Responder Stephanie Ferreira

    Seus origamis e a fotografia deste livros ficaram INCRÍVEIS!! Tu arrasou!! #TeamHumanas
    Mas uooou que livro intenso não? Um casamento fantasma, médium, ásia antiga e claro, a diagramação e capa da Darkside me deixaram doida pra ler!

    9 de novembro de 2016 às 14:36
    • Responder Marcela Fabreti

      Gente de humanas melhor gente. E esse livro é maravilhoso, não tem nem o que falar.❤️

      13 de novembro de 2016 às 14:04
  • Responder Andréia Campos

    Que resenha bem feita! Parabéns!
    Adorei como os fantasmas se envolvem no enredo (tinha medo de ser mais assustador) e como ela acaba solucionando seus problemas: indo na fonte. Mesmo que não por vontade própria, afinal você disse que foi por um deslise da médium que ela foi parar no mundo dos mortos, certo?
    Gosto muito de livros assim, que tem um bom enredo, mas ao mesmo tempo nos apresentam uma cultura nova. É uma relação ganha-ganha!

    Tomara que você resenhe muitos livros da DarkSide, assim posso saber quais eu consigo ler e quais eu devo ficar longe… 🙂

    Beijo unicórnia das trevas! (vai virar minha assinatura por aqui, pq gostei muito)
    Andréia Campos
    http://petitandy.com

    10 de novembro de 2016 às 01:06
    • Responder Marcela Fabreti

      Viu só? E nem deu medo, hahaha.
      Não foi beeem por descuido da médium, mas eu não vou dar spoilers! E prometo ser sua fonte de livros seguros da DarkSide, e te recomendar só os que não tem terror, morte horrível e sangue, ok? HAHAHAH

      13 de novembro de 2016 às 14:06
  • Responder Lais Yuri

    Estava mesmo procurando uma resenha desse livro e caiu bem na hora certa! Amo livros que saem daquela ficção de sempre, ainda mais quando envolve diferentes culturas. Eu amo A viagem de Chihiro, eu tive que ver o filme umas duas vezes pra entender mas acho genial! Agora com certeza vou ler o livro <#

    29 de novembro de 2016 às 09:47
    • Responder Marcela Fabreti

      Que bom, Lais! Espero que aproveite a leitura! ❤️

      12 de dezembro de 2016 às 21:43

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