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Eu amei A Bruxa, mas você talvez odeie.

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Escrever esse texto foi miseravelmente difícil. Eu estou tão empolgada com esse filme que a minha vontade era simplesmente escrever, cena por cena, o filme inteiro, apontando aqui e ali minhas partes favoritas, mas eu não quero estragar a surpresa de ninguém.

Eu não fui, nem de longe, a única pessoa que ficou dolorosamente empolgada com a estreia do filme A Bruxa nos cinemas, desde que a notícia de que Stephen King achou o filme apavorante viralizou por aí. O filme estreou em terras tupiniquins na semana passada e, no sábado, um ou dois dias depois da data oficial de lançamento, lá estávamos nós no Shopping Bourbon (único shopping de Sampa que eu achei passando o filme), com várias horas de antecedência e expectativas mil.

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O que mais me assustava nesse filme era a hipótese de ele ser ruim. Eu não havia visto o trailer e nem sabia muita coisa da história, mas já havia visto todo tipo de comentário. Enquanto uns diziam que o filme “era isso tudo SIM”, outros diziam, simplesmente, que era péssimo. Mas eu sou uma mulher de fé e resolvi pagar pra ver, e gente… Eu amei esse filme. Mas assim, “amei” é pouco, A Bruxa é espetacular, é sensacional, é incrível, é um filme sem precedentes e que não pode ser comparado a nenhum outro já feito até agora. Foi esse tanto que eu gostei do filme. E, pelos mesmos motivos que deixaram A Bruxa com folga no meu Top 10 de filmes de terror, algumas pessoas detestaram o filme. Eu vi um camarada comentando que é “o filme certo sendo exibido para o público errado”, e eu concordo. E é pra isso que essa resenha serve: pra você já ter uma ideia em qual dos grupos você se encaixa, e se A Bruxa é, ou não, um filme pra você. Fica de boa, que o spoiler lá do fim do texto tá bem sinalizado.

Esse é o tipo de filme que fica melhor se você já tiver um pouquinho de conhecimento sobre a época nas costas. Nos tantos de 1600, quando colonos ingleses iam para os Estados Unidos, boa parte das famílias era de perseguidos religiosos. Sendo a Inglaterra um país predominantemente anglicano, não é de se surpreender que os puritanos fossem perseguidos e expulsos. Os puritanos, pode-se dizer, são cristãos radicais. Eles falavam como era falado na Bíblia do Rei James (a versão mais importante da Bíblia em inglês), o que, pra gente, significa que eles só falavam usando o “vós”, proibiam o teatro e demais manifestações artísticas e, em geral, eram contra tudo o que não envolvesse o texto literal da Bíblia. Para essa gente, o diabo não está nos detalhes: está em toda a parte. Esses religiosos, não aceitando práticas diversas das suas, também eram perseguidos nas colônias, muitas vezes criando vilarejos próprios ou sendo expulsos das vilas que habitavam.

E é isso o que acontece com a família do filme. A história começa com William e Kate, pais de cinco filhos, aceitando com prazer a expulsão do vilarejo em que habitavam na Nova Inglaterra, por suas práticas religiosas não condizerem com as da maioria. Eles, então, reúnem todos os seus bens e partem para uma fazenda na beira da floreta, a um dia de viagem de onde costumavam morar. A vida é difícil, mas também é a vontade divina… No entanto, agradecer à Deus é muito mais difícil quando o filho recém-nascido da família desaparece diante dos olhos cuidadosos de Thomasim, a filha mais velha.

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Ainda que a família acredite que um lobo levou a criança, nós sabemos o que aconteceu de verdade. Nós sabemos que criaturas mais perigosas do que lobos habitam o interior da floresta. De qualquer forma, é esse acontecimento que começa, lentamente, a destruir a família por dentro, e Kate não consegue deixar de culpar a mais velha pela morte do mais novo.

O filme é lento, realmente lento. Com apenas uma hora e meia de duração, toda a primeira hora é feita para que você viva com a família e, sobretudo, sofra com ela. É um slice of life terrível e doloroso, muito semelhante aos livros de Stephen King nesse quesito.

A falta de sorte parece cercar Thomasim, pois todas as coisas trágicas ou misteriosas acontecem quando ela está por perto e, para uma família que acredita que o diabo está em toda parte, qualquer acontecimento pode ser muito mais do que má sorte.

É na última meia hora que tudo acontece. Se antes você sofria, agora você fica tenso. O filme trabalha muito mais com tensão do que com medo. O começo do fim é coroado com o monólogo de Caleb, o segundo filho. EU JURO POR DEUS, nenhuma criança deveria conseguir atuar tão bem. Por dois minutos ele fala diretamente com a câmera, com você, e você não lembra como se faz para respirar. Ele fala, grita, gesticula, cada pausa é minimamente calculada e, no fim, tudo se esvai lentamente, e tempos depois você percebe que ainda não está respirando, está simplesmente olhando para a tela boquiaberto. Mas não pensem que só Caleb se destaca: tudo no filme é impecável, todos os atores são inacreditavelmente bons, mesmo os mais jovens. A ambientação é absolutamente perfeita e, se você não conseguir inserir a si mesmo na história (ainda que a realidade deles não pudesse ser mais diferente que a nossa), então parte da magia estará comprometida. A trilha sonora também é algo fantástico: ela foi planejada para deixar desesperadora mesmo a cena mais simples. Ela é alta, quase gritada, poderosa, que te enche de vontade de fugir para que o som diminua, para quem canta jamais saber que você estava por perto.

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O filme não trabalha com sustos, monstros ou jumpscares, você não vai conseguir simplesmente desligar seu cérebro, sentar confortavelmente na poltrona e dizer “assuste-me”. Ele trabalha com uma ideia, uma família e a tensão contínua. Seu desenvolvimento é bastante lento, eu preciso reforçar isso. Você não vai fincar as unhas na cadeira ou querer fechar os olhos – muito pelo contrário: vai querer absorver tudo e vai esquecer que você está em um cinema enquanto Thomasim está numa floresta. A representação do Diabo é, também, impecável. Não estamos falando de um demônio feio, cruel ou brincalhão, mas sim do diabo: limpo, meticuloso, sedutor, que não te deixa escolha e, ao mesmo tempo, te faz acreditar que a decisão é sua. É o diabo de Paradise Lost, clássico da literatura protestante, e é desse diabo que os puritanos tinham tanto medo, e não sem motivo.

Se você se deu por satisfeito com o texto até aqui, tudo bem, pode parar de ler. Pode deixar seu comentário e seguir tranquilo até o cinema mais próximo. Agora, se você está se perguntando “e a bruxa?”, então o resto desse texto é pra você, mas ele talvez estrague algumas surpresas (spoiler alert, alguém?).

A bruxa existe. Nós sabemos disso desde o começo do filme. Nós sabemos que existe uma mulher, ao mesmo tempo jovem e bonita e velha e assustadora que mora no interior da floresta, e nós sabemos que ela é a responsável por tudo. Quando o coelho aparece, nós sabemos que é ela. Mas ela não é importante, não de verdade. A Bruxa que dá o título ao filme não é ela, mas Thomasim. Tudo o que aconteceu foi para que Thomasim não tivesse escolha a não ser virar, também, uma (ou “a”) Bruxa. O filme é todo sobre os peões que o diabo usa para conseguir o que quer, e a bruxa da floresta é só um deles. Eu confesso, seu uso foi sub-ótimo, ela poderia ter sido inserida mais profundamente na história sem comprometer o contexto, mas eu acredito que esse tenha sido o único defeito do filme inteiro (esse e alguns detalhes mínimos da cena final que eu teria mudado, apenas pro meu prazer). No entanto, sempre que eu penso nisso, eu concluo que qualquer alteração maior na história me obrigaria a abrir mão de cenas fantásticas, piorando-o ao invés de melhorar. Eu honestamente acredito que A Bruxa é um filme tão bom quanto fica, assim, com sua uma hora e meia e nenhuma necessidade de continuação. Parabéns aos envolvidos, continuem com o bom trabalho.

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4 Comentários

  • Responder Livro Tudo

    Sou muito mole em relação a filmes de terror kkkkkkk. Mas sempre bate aquela curiosidade em assistir. No mês de Janeiro, um conhecido me mostrou o trailer, e ele como é um fã de filmes do gênero, disse que eu deveria assistir. Confesso que fiquei mega curioso para assistir e com esse texto eu percebi que tenho. Não é uma questão de escolha e sim de curiosidade aguda… Parabéns pelo texto.

    10 de março de 2016 às 23:29
  • Responder Marcela Fabreti de Oliveira

    Poxa, que legal! Fico feliz que tenha gostado, e muito obrigada 🙂 é sempre bom contagiar alguém com essas coisas, hehehe

    11 de março de 2016 às 23:01
  • Responder Lila Martins

    Eu sou apaixonada por filmes com essa pegada eu to roendo as unhas pra ver e esse é um daqueles filmes pra se ver no cinema justamente por ter essa tensão!!! Queria ver, mas agora deu mais vontade ainda!

    20 de março de 2016 às 22:31
  • Responder Natasha Magalhães

    Eu também amei esse filme! Fui ver sozinha no cinema porque ninguém queria ir ver comigo e saí da sala surpresa que a maioria das pessoas não gostou, saíram falando muito mal e com sorrisos debochados no rosto. O filme mostrou algo que é verdadeiro pra muita gente. E eu entendi como você, no final das contas, a bruxa era a Thomasim. Muito louco. Foi o filme mais "real" que eu já vi.

    25 de abril de 2016 às 11:42
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