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Crônicas

[642 things to write about] #70: Descreva duas visitas ao circo a partir do ponto de vista de alguém que é bipolar. Em uma visita, ele é maníaco, e em outro, ele está em um poço de desespero.

Quer ler a última crônica da série “642 things to write about” publicada aqui? Clica.

Março, 23.

Estavam distribuindo panfletos coloridos no metrô. Eu nunca pego essas coisas, mas eles estavam super bem caracterizados, tinha até um cara em cima de um monociclo e, caralho, esse negócio deve ser super difícil de andar.

E outra coisa: um circo! Quão legal é isso? Eu nem lembro da última vez em que fui à um circo, mas com certeza foi na época em que animais ainda eram permitidos nas apresentações, e isso faz tempo pra caramba. Heh, eu me sinto velho agora. Mas nada como um circo para me fazer sentir jovem de novo. Vou convidá-la para ir comigo, isso tem tudo para ser um daqueles passeios mega românticos, tipo desses filmes antigos. Eu duvido que eles tenham um parque com uma roda-gigante ou coisa assim, mas, se tivessem, eu definitivamente me sentiria num filme clichê dos anos 90, com direito a beijo no alto da roda-gigante e tudo.

Independente da roda-gigante, ela amou a ideia. Ela disse que nunca foi ao circo! Cara, quão legal é isso? Eu vou levar a garota dos meus sonhos ao circo pela primeira vez na vida dela! Deus abençoe o camarada do monociclo.

Aliás, ainda bem que eles não usam mais animais nas apresentações, isso ia acabar com a noite dela, com essa onda de vegetarianismo e tal que ela ainda está tentando se adaptar. Nós vamos no sábado, no começo da noite, o que é tipo oficialmente o melhor momento da semana inteira para ir ao circo. Eu estou otimista, eles pareciam profissionais de verdade, e vi gente na cidade falando muito bem deles. Tem tudo pra ser um daqueles circos fodões que passam na TV e onde os artistas são famosos no meio e tal. Isso me lembra que a minha irmã quis fazer artes circenses por muito tempo. Eu acho um curso bem legal, na verdade, ela deveria ter feito. Ela poderia fazer todas essas coisas bacanas tipo se equilibrar numa bola imensa e sair rolando com ela por aí. Isso seria sensacional nas festas. Eu ia ter certeza de levar uma bola dessas em TODOS os churrascos. Aliás, vou falar pra ela desse circo novo, ela talvez se anime de ir com os filhos, as crianças adoram esse tipo de coisa. Acho que todo mundo deveria ir ao circo quando é criança, esse é o tipo de coisa que te torna um adulto mais feliz.

Ela parece realmente ansiosa, até mais do que eu. Eu derreto por dentro toda vez que ela abre esse sorriso maravilhoso e diz que sábado está chegando. O que, por sinal, está mesmo. Compramos os ingressos hoje, sexta, e garantimos um lugar bem na frente (eu não sabia que circos trabalhavam com assentos marcados, eles cada vez me parecem mais profissionais). Eu estou rezando para alguém chamá-la como ajudante pra alguma coisa divertida, isso seria a cereja do bolo, definitivamente.

Caralho, o circo é ENORME. A tenda é tão grande e colorida que aposto que pode ser vista de um satélite ou coisa assim… Ou talvez não, ok, mas você entende o ponto: é grande, colorido, cintilante e deve caber umas mil pessoas dentro com folga. Não tinha um parque com uma roda gigante, mas eles tem várias tendas com todas as comidas que você imagina quando pensa em circo. Isso é tudo tão nostálgico! Os olhos dela estão brilhando tanto que eu acho que vou explodir. Juro que a vontade é pedi-la em casamento aqui e agora. Eles tem várias lojinhas ao redor da tenda principal, juro por Deus que se alguma delas vender um desses anéis de plástico, desses com um diamante (de plástico) estupidamente grande em cima, eu ajoelho na palha e a peço em casamento agora mesmo.

Ok, eles não tinham um anel de plástico com um diamante de plástico estupidamente grande, mas eles tem uns ursos de pelúcia quase do tamanho dela. Eu perguntei se ela queria um, mas ela disse que são muito caros… Eu não sei vocês, mas eu acho que um urso de pelúcia gigantesco é um investimento que vale a pena ser feito. Nós nos munimos de uma tonelada de pipoca, maçãs do amor (cara, maçãs do amor! Eu havia esquecido como isso era BOM!) e algodão doce (tipo, muito mesmo, quase do tamanho de uma nuvem de verdade). Tenho certeza que todo mundo seria mais feliz se eles vendessem essas coisas na rua. É isso o que falta nessa cidade: vendinhas de algodão doce e maçãs do amor em cada esquina.

A apresentação teve pouco mais de uma hora, e foi o pouco mais de uma hora mais rápido da minha vida. Nós estávamos na primeira fileira, e rimos tanto que eu quase fiquei rouco. Minha garganta estava tão seca que eu precisei sair pra comprar refrigerante e voltar correndo, torcendo para não ter perdido nada divertido. O resultado foi que o mágico me viu nas escadas voltando para o meu lugar e pediu minha permissão para me cortar em dois. Eu tentei convencê-lo a chamar ela no meu lugar, mas ela insistiu que eu fosse… Acho que ela pensou que eu ficaria envergonhado e não iria, mas eu fui! Nunca fui chamado para o picadeiro antes, realmente me senti uma criança de novo. Lógico que ele não me cortou em dois de verdade, mas o truque foi tão bem feito que até eu fiquei surpreso.

No fim da apresentação eles nos deixaram tirar fotos com os artistas. Ela tirou uma foto carregada pelo “homem extremamente forte” do circo, comigo do lado carregando a bailarina. Depois nós dois tiramos uma foto com o “homem extremamente forte”, e eu juro por Deus que ele nos ergueu cada um em um braço, ao mesmo tempo! Eu tenho uma foto para comprovar!

No fim das contas, eu não a pedi em casamento nessa noite. Também não consegui comprar o urso porque todas as lojinhas estavam com filas absurdas e nós queríamos curtir o resto da noite. Acho que eu nunca a vi tão bonita quanto agora. Eu me sinto o homem mais feliz do mundo.

Reprodução

Reprodução

Maio, 12.

Ela me pediu para irmos de novo ao circo essa semana. Aparentemente é a última apresentação deles antes de partirem para outro Estado, então deve ser algo extra especial e colorido. Ela realmente gostou do que viu da última vez. Ela acha que eu gostei também. Não tive coragem de dizer que não lembro de muita coisa. Eu quero dizer, eu me lembro de rir, mas não sei dizer do quê, exatamente, eu estava rindo. Quando penso agora, não acho que tinha muita coisa para rir ali. Rir das outras pessoas não é legal, e o fato de que há pessoas que ganham miseravelmente a vida, tentando fazer com que outras pessoas riam delas é tão triste… A gente escuta histórias por aí. Tenho certeza de que, se o respeitável público soubesse como é o dia-a-dia dessas pessoas, ninguém daria risada. Honestamente, eu não consigo pensar em muita coisa que me faça rir nesse momento. De qualquer forma, eu aceitei. Ela parecia realmente empolgada, e eu não conseguia pensar em nada mais interessante para fazer ao invés de ir ao circo.

Eu entendo perfeitamente as pessoas que têm medo de palhaço. Eu mesmo não gosto muito deles. Eu consigo perfeitamente imaginar um deles cometendo algum assassinato horrível com um machado e, sei lá, amontoando cadáveres no baú de fantasias.

Ela comprou pipoca e algodão doce, essas coisas que as pessoas que gostam de circo costumam comprar, essas coisas que as pessoas só comem quando vão ao circo. Quer dizer, quem vende algodão doce por aí? Não tem nenhuma loja confiável por aí que venda algodão doce. Eu nunca nem vi uma loja que venda máquinas de algodão doce. Não tive coragem de comer nada. Duvido que eles limpem aquilo tudo adequadamente. Consigo imaginar os insetos que andam pelos aparatos e, eventualmente, acabam grudados no açúcar e no corante, inevitavelmente sendo engolidos por pessoas que comem esse tipo de comida de circo. Pessoas tipo ela. Não consegui tirar a imagem dela com a boca cheia de insetos, mastigando-os avidamente, da minha cabeça por muito tempo. Ela me deu um beijo na bochecha e eu quase vomitei. Tenho certeza que vi um ponto escuro no meio daquela nuvem rosa de açúcar puro que ela insistia em me oferecer. Fiquei terrivelmente enjoado pelo resto da noite.

Por que todo mundo usa tanta maquiagem? Se você olhar bem de perto, pode ver que a tinta do rosto do mestre de picadeiro está borrada e que ele está pingando suor. Acredito que ele tenha poças de suor acumuladas embaixo dos braços, manchando a camisa cintilante e barata. Já ouvi histórias de que pessoas de circo são como famílias antigas, todo mundo tendo caso com todo mundo, os homens batendo nas mulheres, as mulheres dando luz à filhos que ninguém nunca sabe quem é o pai, e ninguém nunca se importa. Crianças crescendo sem saber ler ou escrever, carregando por aí caixas mais pesadas que elas próprias, mantendo as tendas das estrelas arrumadas, colecionando talentos ridículos como malabarismo ou conseguir se equilibrar em cima de uma bola gigantesca, eventualmente flagrando a mãe transando com algum cara bêbado… Um diferente por semana, talvez.

Eu ria quando ela ria, não queria que ela se sentisse mal por ter me arrastado para esse antro. O lugar estava superlotado. Tenho certeza que nenhum bombeiro monitorou a montagem dessa coisa. Não acho que um cuspidor de fogo deveria ser permitido em um lugar fechado… Já até vejo a manchete “centenas morrem queimados em apresentação suicida de circo de horrores”… Quer dizer… Merda… Eles não poderiam estar planejando fazer alguma coisa assim, poderiam? Tenho certeza que muitos deles odeiam o trabalho, a vida, odeiam a mim por estar assistindo e, obrigatoriamente, rindo deles. Eu tentaria matar todo mundo, se eu fosse o cara cuspindo fogo para o alto. Ah, caralho, eu preciso sair daqui.

Disse para ela que ia comprar refrigerante e saí correndo, completamente claustrofóbico e me sentindo muito mal por abandoná-la para morrer sozinha. Não acredito que ela conseguiria abrir caminho caso a tenda começasse a pegar fogo. Ela provavelmente morreria pisoteada enquanto as pessoas tentariam escapar desordenadamente.

Durante vinte minutos eu faço uma dancinha ridícula de quem não sabe se vai ou se volta. Eu poderia voltar e gritar para que todos saíssem enfileirados, com calma, e que assim tudo iria terminar bem. Eu poderia entrar e gritar que o soprador de fogo estava planejando matar todo mundo… Mas aí ninguém ia prestar atenção no atirador de facas, e ele poderia muito bem ser o cabeça da organização. De qualquer forma, ninguém nunca escuta as normas de segurança. Todo mundo ia acabar morrendo pisoteado de qualquer jeito. Se só eu sobrevivesse, eu tenho certeza de que o atirador de facas iria atrás de mim depois.

A apresentação acabou. De algum jeito, eu fiquei do lado de fora por quase quarenta minutos. Felizmente, ninguém parecia estar morto, ou morrendo. Nem ela. Ela parecia puta da vida e perguntou onde eu tinha me metido. Não acho que eu deveria contar para ela que descobri que o pessoal do circo planejava assassinar todo mundo eventualmente. Não acho que ela iria acreditar em mim. Comprei um urso de pelúcia ridiculamente grande para ela como pedido de desculpas. Ela não vai ter onde guardar, e ele não terá outra serventia que não nos deixar com rinite.

De alguma forma, eu sei que esse bicho não foi aprovado pelo Anvisa. É o tipo de bicho que tem drogas dentro. Mas ela ficou feliz, então eu acho que está tudo bem. Eu talvez deva abrir a costura e verificar o enchimento, só por garantia, quando ela não estiver por perto. Você ficaria enojado com o tipo de coisa que essa gente pode usar para estufar um urso.

(Nota: Eu não estou familiarizada com a depressão, mas conheço muito bem um ataque de pânico. Talvez, por isso, meu poço de desespero não ficou o típico de um bipolar).

Não é a primeira vez que um Circo aparece por aqui. Também não é a primeira vez que um ataque de pânico, ou uma crise de ansiedade aparecem por aqui. Você pode ler os outros contos clicando nos links.

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4 Comentários

  • Responder Ana Bonfim

    Uau Marcela! Que texto bem feito, parabéns! Gostei mais do primeiro personagem com certeza, mas me identifiquei com algumas coisas do segundo também. E acho que você deveria escrever mais, muito mais <3

    http://amorticinio.blogspot.com.br/

    24 de Março de 2016 às 23:17
  • Responder A Bela, não a Fera

    Textos bem trabalhado é outra coisa, né?! Mas rola um vicio de linguagem no primeiro: 'cara' 300x vezes. Mania de paulista HSUIAHUISHUIHUSH Desculpe 🙁
    Eu gostei mais da segunda ida, o cara era meio TARSO maníaco esquisofrenico HUAIHSUIHAUIHSUSIAHIU
    Preciso continuar com o projeto D: Dei uma parada sem querer.
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    26 de Março de 2016 às 04:26
  • Responder Marcela Fabreti de Oliveira

    Obrigada <3 <3 mesmo mesmo. Eu quero escrever cada vez mais textos originais, preciso praticar mais, estava morta de saudades de fazer isso e me sinto um pouquinho enferrujada, hahaha.

    26 de Março de 2016 às 05:48
  • Responder Marcela Fabreti de Oliveira

    HAHAHA isso é porque eu queria levar o estado de mania pro vocabulário dele também, queria uma pessoa meio hiperativa, como se tivesse ingerido muito açúcar ou tomado café pela primeira vez, e não conseguisse organizar bem as frases na própria cabeça por estar muito empolgado e com medo de não estar fazendo sentido – e aí repetindo a mesma coisa várias vezes pra ter certeza de que o ouvinte/leitor entendeu.
    Eu acho que me diverti mais escrevendo o segundo, porque né, haja material pra servir de inspiração. E relaxa, porque eu escrevo um conto dessa série uma vez na vida e outra na morte!

    26 de Março de 2016 às 05:53
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