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1Q84 (livro 1) – Haruki Murakami

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Aomame não gosta de seu nome, que significa “ervilha verde”. Ela também não gosta do tamanho pequeno dos seios, e acha que seios maiores facilitariam seu trabalho. Ela gosta de homens mais velhos e em princípio de calvície, de preferência parecidos com George Clooney. Ela se orgulha de conhecer todos os melhores métodos de chutar um homem nas bolas, e de conseguir encontrar com os dedos aquele ponto muito específico da nuca que, quando penetrado por uma agulha bem fina, causa uma morte rápida e tranquila, com todos os sintomas de um ataque cardíaco – coisa muito comum entre os executivos japoneses.

Tengo dá aula de matemática três vezes por semana em um cursinho preparatório, e é escritor amador nas horas vagas. Ele já chegou na fase final de muitos concursos de autor revelação, mas nunca ganhou nenhum, porque falta espírito em suas histórias. Ele gosta da matemática tanto quanto da literatura, e acredita que ambos o levam para lugares maravilhosos e opostos do seu cérebro. Ele também gosta muito da sua namorada casada e dez anos mais velha, que vai até sua casa todas às sextas para fazer sexo; isso porque ele não gosta de se relacionar com pessoas da sua idade, com meninas mais novas ou com alunas, porque ele não gosta de precisar tomar a iniciativa.

1Q84 foi um desses livros que invade a sua vida sem você querer. Um dia a pessoa do seu lado o está lendo no ônibus, e você acha engraçado nunca ter ouvido o título antes. Na mesma semana você vê o livro na vitrine de uma livraria, e agora ele pega o seu olhar o tempo todo, de forma que ele parece estar em toda a parte. Na prática, é muito possível que eu só o tenha visto por aí umas duas vezes, mas isso foi mais do que suficiente – isso e uma promoção de 50% de desconto na livraria mais perto de você. O resultado foi que eu comprei o livro sem ter a menor ideia da história.

Essa provavelmente foi a melhor decisão que eu tomei naquele mês.

Por motivos de livros atrasados, eu demorei muito mais do que deveria para lê-lo, mas, a partir da primeira página, ele se tornou o maior prazer dos meus dias e o maior acúmulo de tags coloridas até agora (provavelmente a ser superado por Os Miseráveis muito em breve). Eu também me dei a meta de ler absolutamente tudo o que Haruki Murakami já escreveu e que foi publicado no Brasil, a começar pelos dois volumes seguintes da trilogia 1Q84.

É engraçado, porque eu não consigo dizer exatamente por quêo livro é tão bom. A escrita do Murakami tem qualquer coisa que te agarra pelo pescoço, até que você percebe que quem está agarrando a história é você.

O livro, que tem pouco mais de 400 páginas, é um slice of lifeque alterna entre os dois protagonistas até a metade ou pouco mais. A história se desenvolve de maneira bastante lenta e muito prazerosa, e tanto Tengo quanto Aomame te conquistam por quem eles são, pelo que fazem e como pensam. E, durante todo esse processo, você sabe que tem alguma coisa estranha acontecendo, mas não sabe o quê. Da metade pro fim, a história muda para fantasia, realismo mágico, pra ser sincera, e ainda assim você não tem certeza de que aquilo é real até que a magia é esfregada na sua cara.

A conexão entre Tengo e Aomame demora muito até para ser sugerida, o primeiro livro só está aqui para fazer você se apaixonar e para preparar o terreno.

A primeira coisa que me conquistou, ainda antes que os protagonistas, foi a narrativa e o jeito de descrever as coisas que o Murakami tem. Não só a redação é diferente, como o nome dos capítulos já te conquista, por serem simples, queridos e diferentes. Acredito que esse tenha sido o primeiro livro de autor japonês que eu li (sem contar os mangás e novels que eu tenho nas costas), e logo de cara é notória a diferença de pensamento, de comportamento, quase de mundo. É uma realidade inteiramente nova, que só me deixou ainda com mais vontade de viajar pra lá.

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Aomame é uma personagem mais profunda, mais traumatizada, com mais conteúdo. E também de uma personalidade muito mais erótica. O sexo está bastante presente em ambos, e em vários capítulos – não a ponto de se tornar algo forçado ou cansativo, mas, enquanto Tengo o procura para aliviar a tensão da semana, Aomame precisa dele para aliviar a tensão de anos da sua vida, e de ocasiões de grande impacto traumático. É como um beast mode que ela sente necessidade de extravasar com homens desconhecidos em casos de uma noite em hotéis por aí a cada poucos meses. A intensidade de sua sexualidade, juntamente com o detalhe e riqueza da narrativa de Murakami, muitas vezes me deixou com a sensação de exagero – a história podia ter menosdisso sem perder qualidade. Mas essa é a minha única crítica no livro inteiro, e mesmo assim eu admito que a sexualidade dos personagens não é nada fora do normal.

Já o Tengo é um personagem simples, acomodado, com pouco ou nenhum objetivo de vida, que aceita numa boa as coisas que o mundo lhe dá, sem pensar em reclamar por mais.

Então, talvez para equilibrar as coisas, ao mesmo tempo em que Aomame é uma personagem mais rica, a história de Tengo é muito mais interessante.

O primeiro livro se passa entre abril e junho de 1984, e tudo começa quando ele tenta convencer o homem que talvez seja seu único amigo, um importante editor de uma revista literária, a levar o conto de uma jovem de 17 anos intitulado A Crisálida de Ar para a fase final de um concurso de jovens autores. O próprio Tengo admite que o texto é ruim, muito ruim, mas que a história tem algo maior escondido, algo precioso. Apesar de Tengo ser um homem que não gosta de se arriscar, depois de muito digerir a ideia, ambos os amigos decidem entrar em contato com Fukaeri, a jovem autora de uma obra tão cativante, para conseguir permissão para que Tengo a reescreva, melhorando sua redação sem mudar seu conteúdo, tornando o romance apto a vencer o prêmio de escritor revelação.

Paralelamente, Aomame finge-se de gerente de um hotel de luxo para conseguir estar no mesmo quarto que um importante executivo do petróleo e, assim, mata-lo de seu jeito próprio e perfeito. Isso porque, além de ser um importante homem de negócios a caminho de uma reunião milionária, ele também era um homem cruel que espancava sua esposa.

E assim nós conhecemos não só os protagonistas, mas também as duas personagens coadjuvantes que, pessoalmente, viraram minhas personagens favoritas do livro inteiro, e são elas que tornam a história grande como ela é. É como se os peões dessem razão para o movimento do rei e da rainha.

A velha senhora, personagem auxiliar do arco de Aomame, é a responsável pela “missão” ideológica da protagonista de proteger mulheres de homens violentos. E essa é uma das grandes críticas que o autor faz durante todo o livro: a violência contra a mulher no Japão é algo bastante pior do que no Brasil, além de ser aceitável, até comum.

Enquanto isso, Fukaeri é responsável pela crítica política do livro, trazendo à tona grupos rebeldes e atos terroristas, e grupos religiosos que funcionam dentro de redomas inatingíveis, livres para cometer qualquer ato bárbaro protegido pela liberdade de culto. Muitas vezes, inclusive, você não consegue distinguir o que é política, o que é religião e o que é barbárie.

Pouco a pouco, conforme as duas histórias evoluem em caminhos absolutamente separados, pequenas sugestões podem ser vistas aqui e ali, deixando o leitor se questionando ferozmente sobre quem os protagonistas são e de onde eles se conhecem. A conexão entre os dois demora para aparecer, mas é simples e realmente adorável, e só aumenta a sua vontade de ler a continuação.

Não é engraçado como só o fato de duas pessoas aparentemente desconhecidas e absolutamente aleatórias andarem pelos mesmos lugares de uma das cidades mais populosas do mundo encha o seu coração de alegria? Tengo e Aomame são especiais assim para o leitor.

Ao mesmo tempo, a magia conecta as duas histórias de maneira tensa, preocupante, perigosa e discreta. Aomame não aceita o fato de não se lembrar de um acontecimento tão importante quando a mudança do equipamento da polícia ou uma troca de tiros contra um grupo terrorista nas montanhas, e se pergunta se só ela consegue ver duas luas no céu. Fukaeri promete a Tengo que O Povo Pequenino, criaturas fantásticas de seu conto, são reais, e que ele pode vê-los, se quiser, e que eles talvez não tenham gostado da história que ela escreveu.

Conforme a história avança, um personagem consegue informações cruciais para o outro, mas, como eu disse, o link entre os dois demora muito para surgir, o que significa que tem MUITA coisa para acontecer no volume dois.

A minha vontade realmente é passar na livraria mais próxima e comprar todos os livros do Murakami, então não me culpem se de repente vocês acordarem e tiver uma aba própria pra resenhas dele por aqui. Estando a leitura mais que recomendada, eu espero que vocês gostem, leiam e depois venham aqui para me contar! Até o próximo post! ❤️

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1Q84 (livro 1)

Autor: Haruki Murakami
Idioma: Japonês
Tradução para o português: Lica Hashimoto
Editora: Alfaguara
Ano: 2012
Páginas: 432
ISBN: 978-85-7962-180-2

Nota: 9,0/10

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4 Comentários

  • Responder Poly

    Não conhecia o livro, mas fiquei morrendo de vontade de ler.

    Ele me conquistou sem eu nunca ter visto antes. Interessante quando isso acontece.

    Sua resenha foi intensa e detalhada. Adorei.
    Bjuxxxx

    14 de Fevereiro de 2016 às 17:59
  • Responder Ruh Dias

    Você tem razão quando diz que tem livros que ficam "voando" por aí e, quando percebemos, estamos interessados neles sem nem saber direito do que se trata. Já vi bastante também este livro rondando meu cotidiano, mas sempre esquecia de buscar mais informações sobre ele.

    Fiquei realmente com vontade de lê-lo quando você disse que começa a rolar um realismo mágico. E as descrições das personagens também me chamaram a atenção.
    Excelente resenha, Marcela!

    Beijos,
    Ruh Dias
    perplexidadesilencio.blogspot.com

    18 de Fevereiro de 2016 às 02:37
  • Responder Marcela Fabreti de Oliveira

    Muito obrigada!! Se for assim, eu estou só repassando o efeito que o livro teve em mim. Leitura super recomendada!

    19 de Fevereiro de 2016 às 02:35
  • Responder Marcela Fabreti de Oliveira

    Obrigada! 😀 Fique à vontade para considerar esse post como um sinal de que você deve ler o livro, hahahaha

    19 de Fevereiro de 2016 às 02:36
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