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[Resenha] Entrevista Com O Vampiro – Anne Rice

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Eu adoro uma boa história de vampiro. Falando a verdade, quem não gosta? Eles são bonitos, cheios de classe, super fortes, maus (de um jeito legal, hihi) e, em alguns casos, completamente badasses. Tudo fica mais legal com eles: romances, terror, suspenses, cenas de luta, eles dão ótimos vilões… Lógico que isso não se aplica à todos os casos, MAS, como o post não é sobre Crepúsculo (sorry not sorry), nossos vampiros ainda se encaixam no padrão e, com um tantão a mais de drama, fazem parte de um episódio gótico bem legal.

“Entrevista com o Vampiro” é o primeiro volume de As Crônicas Vampirescas, coleção mundialmente famosa de Anne Rice, que nos apresenta o depressivo Louis, o cretino (que todo mundo ama) Lestat, Armand – que é a classe em forma de vampiro, e Claudia, personagem que, até onde eu sei, segue sem comparação no gênero.

O filme também é bastante conhecido, e conta com um elenco, na minha opinião, sensacional, mas que causou bastante controvérsia entre os fãs mais hardcore da época. Eu, como vi o filme antes de ler o livro, sigo sem reclamações. Acho esse filme amor puro, aceito até aquelas dentaduras super estranhas deles, resultado de uma época com muito menos efeitos especiais.

(Pensamento super aleatório do momento: deve ter sido um inferno conseguir falar direito com aquelas próteses na boca. Tipo eu quando coloquei o primeiro aparelho na escolinha.)

Meu contato com o livro foi bastante tardio, em comparação com o filme. Afinal, eu era uma criança do interior de São Paulo, com UMA miséria de livraria na cidade inteira, mas com um avô que colecionava DVDs. Então, na época em que a coleção foi reimpressa com capa nova, vocês bem podem imaginar que a Marcelinha sur-tou. Minha vontade era encomendar logo a coleção inteira, mas meu avô, muito sabido das coisas, me aconselhou a ler o primeiro livro antes e ver se eu gostava. Vou confessar: bom conselho!

Não pensem que eu não gostei da história, que não é bem assim. Li pela primeira vez antes mesmo de começar o colegial (faz tempo!), e eu lia na aula, uma página aqui e outra ali, demorando séculos e sem me sentir muito entretida. Na época eu achei bem chatinho, e foi um alívio não ter uma coleção inteira para ler. De qualquer forma, o livro ficou ali, eternamente juntando pó na prateleira.

Recentemente eu achei que o livro valia a pena ser relido, porque minha opinião sobre a história com certeza estava infectada com a falta de atenção de uma pré-adolescente e… Assim… Não rolou muito não, sabe?

Em comparação, a leitura fluiu MUITO mais rápido, e um ponto importante foi que eu entendi o verdadeiro motivo de eu ter achado chato naquela época, e continuar achando chato hoje: a tradução é uma droga.

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Esse é um problema recorrente, nem sempre rola uma dedicação ou uma revisão. O PROBLEMA é o nome da diaba da tradutora: Clarice Lispector, já ouviu falar? Pois é!

Confesso que nunca li nada da autoria de Clarice, eu tenho meio que uma preguiça perpétua dela desde aquela época em que até frase que vem no bombom Amor recebia seu nome  nas internets da vida, e esse específico trabalho dela como tradutora também não ajudou. De forma nenhuma vou cristalizar opinião sobre ela só por causa disso, mas, por hora, a preguiça segue. Recentemente, jogando o causo nos grupos literários que eu participo (como eu sempre faço antes de começar uma resenha), aprendi que a tradução foi feita um ano antes de sua morte, o que pode justificar alguma coisa. De qualquer forma, o texto é tão travado! Parece até que o tradutor não tinha intimidade nenhuma com o inglês. Não rolou, em momento algum, algo mais elaborado, mais poético, e resultou que frases que provavelmente soam bem em inglês soaram, em português, como a lição de casa de uma criança no meio do iniciante da Cultura Inglesa. Exagero? Pode ser, mas só pra garantir eu vou deixar alguns trechos aqui, pra vocês entenderem do que eu estou falando:

“Mas ela montou sobre ele, seu corpo sendo erguido pelos ombros dele…”
“(…)quando a carne aderiu aos ossos, transformando-se em mero invólucro dos ossos…”
“Agora seus olhos examinavam Cláudia languidamente (…) Coloquei a mão no ombro de Cláudia.”
“(…)como se pudesse proteger Cláudia de mim – que ironia, que ironia patética -, proteger Cláudia de si mesma.
– Sussurrava para Cláudia: – Não chore, não chore. – Suas mãos afagavam o rosto e os cabelos de Cláudia com uma ferocidade mortal.
– Mas Cláudia parecia subitamente perdida em seu colo…”

Em determinado momento do livro eu grifafa cada frase tortinha pra ter certeza que eu que não estava sendo chata, mas aí eu desisti e comecei a só marcar as páginas, porque isso acontece em todas elas. Vamos combinar que isso empaca qualquer leitura? Isso sem falar de erros de continuidade, Madeleine começa a história morena e termina ruiva; Cláudia uma hora usa ópio e pro-me-te que não era absinto, depois usa absinto mesmo e que se dane. E eu tenho consciência do quão chata pra revisão de texto eu sou, mas honestamente acredito que estou no meu direito de reclamar de coisas desse estilo.

Em compensação, a história é boa. Muita gente disse que mesmo a narrativa original é arrastada, e eu acredito, porque a narrativa de Louis é arrastadíssima. Aliás, ele é a própria encarnação do que “arrastado” significa.

No começo da história, quando são apenas Louis e Lestat, é praticamente impossível simpatizar com o loiro, porque Louis o odeia e sua narrativa é mega depreciativa. Aí entra a Claudia, e mesmo nas épocas de emoções mais intensas dele, a narrativa continua com a empolgação de um funeral. Mas, sem favoritismo, o Lestat provavelmente é um chato de verdade, mas ele é tão mais divertido! Ele explode, mata teatralmente, dá risada alto, encena Shakespeare no meio da rua (fato), joga as coisas contra as paredes, ele sente alguma coisa que não só auto piedade! Agora, a Claudia… Ah, a Claudia.

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Eu achei a personagem sensacional, de verdade. Ela é tão… Errada. Tudo nela é errado. Louis se apaixona platônica e absurdamente por ela, e ela só tem cinco anos! E vocês aí pensando que Lolita é que era tenso! Lestat acha tanta graça da situação, porque Louis era todo politizado de nunca matar humanos e viver só de ratos, que fica de olho nela e, um ou dois dias depois, a resgata de um orfanato/hospital e a transforma em vampira. Se isso, por si só, é incômodo, imagina quando a gente descobre que ela era nova demais para ter qualquer lembrança ou sentimento por sua humanidade, quase como se ela tivesse nascido vampira! O desprezo e curiosidade dela pelos seres humanos é ainda maior que a de Lestat, e isso, obviamente, aterroriza Louis. Pior ainda quando os anos passam, e ela se torna uma mulher, imortal, presa no corpo de uma criança de cinco anos! Eu não sei vocês, mas eu nunca vi nenhuma outra história com uma personagem rica assim.

Infelizmente, a frustração de Claudia ganha proporções de loucura quando ela e Louis, em Paris, conhecem Armand e seu Teatro dos Vampiros. Isso depois de acreditarem ter assassinado Lestat e terem corrido a Europa inteira atrás de sua espécie, encontrando apenas criaturas monstruosas, animalescas e sem inteligência.

Armand é um personagem que, francamente, eu queria pra mim. Ele é devoto, solícito e dedicado e, como eu disse, a classe em pessoa. Ele é o vampiro mais velho que se tem notícia, o que significa que ele manja de absolutamente TUDO. A relação dele com Louis é muito mais romântica e platônica do que a de Louis e Claudia. Na verdade, esse é o único momento em que Louis começa a se descobrir como vampiro, e isso já é lá pro fim do livro. Ou seja: ele fica umas boas 250 páginas sendo só um humano melancólico com poderes esquisitos e que precisa beber sangue, o que desgraça ainda mais a sua vida.

A impressão que eu tive é que, enquanto ele estava encantado por Armand, ele finalmente parou de reclamar. NO ENTANTO, quando ele e Armand fogem juntos, ele vira o mesmo cara depressivo, melancólico e insatisfeito de sempre. CACETE ELE FOGE JUNTO COM O ARMAND, UM VAMPIRO MUITO MAIS LEGAL, PODEROSO E TALENTOSO PRA VIVER UM BROMANCE AO REDOR DO MUNDO VENDO LUGARES INCRÍVEIS E ABSOLUTAMENTE TODAS AS OBRAS DE ARTE DA EXISTÊNCIA E ESSE MISERÁVEL CONTINUA RECLAMANDO DA VIDA? Não gostou, passa pro próximo da fila! Resultado: o Armand levanta, dá adeus e sai andando pra nunca mais ser visto, porque ele NÃO é obrigado. Não, sério mesmo, ele conclui que o Louis jamais conseguiria ser feliz, nem com ele e nem com ninguém, e vai embora tocar a própria vida.

Outro personagem que eu gostei muito foi a Madeleine: uma artesã de bonecas extremamente talentosa, que direcionou seu luto pela filha morta para seu trabalho, de forma que todas as bonecas são bebês com o mesmo rosto. Ela se encanta por Claudia, aceitando produzir uma boneca diferente só para ela. Mais tarde, Claudia lhe explica sobre sua própria natureza, a de uma criança que não pode morrer, e confessa seu desejo de ver a artesã transformada em vampira para acompanha-la eternamente. As duas então tentam convencer Louis a transformá-la, e ele, como sempre, faz um drama desgraçado antes de aceitar fazê-lo, porque Claudia era muito pequena e não tinha força suficiente para criar outro vampiro.

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A ideia de uma vampira-artesã me atraiu MUITO. A maneira como eles precisavam arrancar o cinzel da mão dela e quase empurrá-la para o caixão antes o amanhecer, porque ela não parava de trabalhar e produzir móveis de madeira doll-sized para Claudia, e a forma como ela também era completamente louca na hora de se alimentar, super deslumbrada com os próprios poderes. Para mim ela poderia ser uma personagem com futuro, eu leria mais histórias sobre ela. Infelizmente, tanto ela quanto Claudia são executadas pelos vampiros do Teatro. Inveja? Irritação? Medo? Toda a treta começou quando Louis chama um dos vampiros de “bufão”, e eles decidiram que isso era motivo o suficiente para tentar matar/torturar todos eles. Nessa hora Lestat, que não estava morto mas aparentemente passou por poucas e boas, aparece e, coitado, acredita que os vampiros do Teatro convencerão Louis a voltar com ele.

Lestat vai e volta frequentemente, e como Louis não sabe por onde ele andou, nós também ficamos na vontade. Ele acaba sendo o personagem mais interessante do livro, porque ficamos curiosos para saber o que ele fez esse tempo todo, de onde veio, para onde foi e como conhecia todas aquelas pessoas.

Quando a história volta para os tempos atuais, Lestat sofre aquele frequente mau dos vampiros de não conseguir adaptar-se à nova época: ele parece um velho, fraco e assustado demais para caçar, vivendo à base de gatos e de qualquer coisa que um jovem vampiro criado por ele lhe traga. De qualquer forma, mesmo alguém assim parece mais promissor do que Louis, isso até na visão do jornalista que ouviu todo o seu relato (porque toda a narrativa é Louis contando sua história para o jornalista). ATÉ ELE termina frustrado e achando que Louis aproveitou pouco ou nada de sua vida, ocupado demais em sua auto piedade para aproveitar o presente que o destino lhe dera. A decisão final do jovem, de posse de toda a história do vampiro, é procurar Lestat, e assim o livro acaba.

É uma boa história, de verdade, mas fica difícil aproveitar quando o protagonista e narrador é alguém tão chato, que tira a magia e beleza até das coisas mais incríveis que aconteciam ao seu redor. Justamente por isso dá vontade de ler os próximos volumes, porque aí conheceremos mais de perto os outros vampiros, e o foco narrativo com certeza vai mudar, sendo impossível ficar mais chato do que Louis. No fim das contas, eu acredito que ele foi o único culpado de todas as tristezas que aconteceram em sua vida, apesar de ele insistir em culpar todo o resto.

O livro tem, sim, algumas passagens memoráveis, eu pessoalmente gosto muito da descrição do cenário das salas subterrâneas do Teatro dos Vampiros, e um ou dois diálogos conseguiram me deixar arrepiada. Todavia, lê-lo duas vezes foi mais do que o suficiente, e assim que eu terminar esta resenha irei abandoná-lo no hall do meu prédio, que tem uma prateleira justamente para livros que não queremos mais, e que talvez interessem os outros moradores. Se você for meu vizinho e tiver ficado com vontade de ler o livro, corre lá.

“- Não vê? Não sou o espírito de minha época. Estou distante de tudo, e sempre estive! Nunca pertenci a lugar algum, a ninguém, a qualquer época! (…)
– Mas Louis – disse baixinho. – É este o espírito da época. Não percebe? Todos se sentem assim. Sua descrença na graça e na fé tem sido a descrença de um século.”

“- Ela é perfeita. Louca; mas para os dias de hoje isto é perfeito”.

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As Crônicas Vampirescas – Entrevista com o Vampiro
Autora: Anne Rice
Tradução: Clarice Lispector
Editora: Rocco, 1992
Páginas: 334
ISBN 83-325-0102-8

Nota: 6,5/10

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4 Comentários

  • Responder Vivian Loreti

    Caramba, sua resenha me fez ver coisas sobre o livro que nunca tinha dado muita importância quando li, há duzentos anos. Nunca liguei pra Madeleine, por exemplo, mas agora fiquei pensando nela.

    O Armand é tudo, né?

    Mas o livro me deixou meio ZzzZzz em vários momentos porque o Louis é um CHATO. Haja paciência pra tanto mimimi.

    Um dos livros de Anne Rice que nem consegui terminar foi Memnoch… achei a história péssima, a tradução ruim e um mimimi sem fim, e olha que era o Lestat (sou apaixonada por ele)!

    Beijão!

    A tal da Vivian

    17 de setembro de 2015 às 21:59
  • Responder Fernanda Moncken

    ENTREVISTA COM O VAMPIRO <3
    Confesso que ainda não li os livros da série Cronicas Vampirescas, mas foi mais por falta de tempo do que qualquer coisa. Morro de amor pelos dois filmes dessa série <3 <3 <3
    E se os filmes são bons, os livros com certeza são melhores xD
    Queria comprar a série toda, queria comprar a série de bruxas da Anne Rice também. Ai me vem o segundo problema principal (o primeiro é o money): espaço. Não tenho espaço pra respirar em casa, imagina pra uns 20 livros kkkkk
    Tem tanta coisa que quero ler T^T
    Você só me deu mais vontade agora xD

    17 de setembro de 2015 às 22:00
  • Responder Marcela Fabreti de Oliveira

    Eu fiquei morrendo de vontade de rever o filme enquanto resenhava o livro, e ainda não assisti A Rainha dos Condenados! Confesso que estou com um pé atrás de ler outros livros dela, mas no mínimo o do Lestat eu leio!

    18 de setembro de 2015 às 22:17
  • Responder Marcela Fabreti de Oliveira

    Ai gente, se até com o Lestat o negócio não acelera fica difícil defender! D:

    18 de setembro de 2015 às 22:27
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