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Crônicas Pessoal

Eu, pessoalmente, não empresto livros.

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Reprodução / Tumblr

Não, eu não empresto livros, não adianta me pedir. Talvez, talvez, se você for um amigo muito querido, eu até abra uma exceção, mas saiba que eu espero atualizações diárias quanto ao estado de conservação e leitura do livro que te entreguei.

Houve uma época em que eu acreditava que entregar meus livros a outra pessoa era uma demonstração de confiança, um pacto que elevava nossa relação de amizade e confidência. Fazia bem ao meu espírito a sensação de entregar algo que, para mim, era importante, e acreditar que a pessoa daria àquilo a atenção merecida. Emprestar um livro era algo íntimo
… Isso até que um coleguinha de sala me devolveu um quadrinho com a capa rasgada e um dar de ombros porque “não sabia como tinha acontecido”. Isso foi na quinta série. Eu ainda me lembro e eu ainda tenho o quadrinho, mas eu não falo mais com aquele coleguinha. Quem sabe, se ele não tivesse sido descuidado com o meu quadrinho, talvez nós ainda fôssemos amigos. Se vocês, a esta altura do texto, me taxarem de possessiva, eu juro que entendo.
Depois desse episódio, eu comecei a ficar com aquela pulga atrás da orelha toda vez que emprestava um livro para alguém. Eu fazia (ainda faço) uma lista mental de todos os livros emprestados e todas as pessoas que estão com eles, para garantir que não me esqueceria de cobrar se algum deles, por ventura, se esquecesse de devolver. Eu tentava não ser muito apressada, não cobrar muito, não ficar muito em cima, mas era só a pessoa ficar algumas semanas sem falar do bendito livro que eu estava lá, toda ouriçada querendo de volta.
Isso até que o meu Clube da Luta saiu de São Paulo na mala de um conhecido e foi para Niterói para nunca mais voltar.

Eu sei que eu fui totalmente contra a minha própria política, mas vocês precisam entender: ele era o namorado de uma grande amiga. O livro foi comprado, coincidentemente, logo depois de um longo diálogo sobre como nós queríamos lê-lo, e a promessa de que o primeiro a comprar emprestaria para o outro. Não bastando ele nunca ter comentado absolutamente nada sobre o quão incrível a história é, ele ainda o levou para longe de mim, e desconfio meu livro tenha sido vendido em algum sebo de orla de praia há muito tempo.

O pior de tudo? Eu estou louca para ler aquele livro de novo…

Depois disso, eu disse chega. Só empresto pra família, porque com parente é mais certo de que o livro vai voltar pra mim. Eu verei o livro na prateleira da sala ou na cabeceira ao lado da cama quando for visitá-los, e eu poderei conversar sobre a história e pedir o livro de volta sem qualquer receio.

Aí o meu Lolita (ai meu Deus o meu Lolita) foi para as mãos da minha tia. Três meses depois ela ainda não tinha lido, e o Schnauzer dela achou por bem comer-lhe a capa – e logo em seguida, todo o resto. Quando ela voltou do trabalho, descobriu que a casa inteira estava decorada com as páginas do meu livrinho querido. Ela me prometeu um novo. Isso uns três anos atrás. Desnecessário dizer que o novo não chegou e nem nunca vai chegar.

Depois disso que eu vi mesmo que não tinha jeito, que não tinha como, e que livro não foi feito para ser emprestado. Quando toquei nesse assunto em um grupo do Facebook, uma moça me respondeu que livro é que nem calcinha: não se empresta pra ninguém. Acabei por concordar, quisera eu ter aprendido isso antes.
Enfim, lição aprendida. Livro emprestado mesmo agora só pro namorado, que tem roupas minhas dentro do armário e livros meus na prateleira (e a recíproca procede); ou pra colega de quarto, porque eu sei onde ela dorme; ou então pra minha avó, que foi quem me ensinou a ler, e tá até agora com um livro meu na mesa do quarto (e não pense que eu não sei que você vem fazendo anotações nas páginas que você gosta, vovó. Tudo bem, eu te perdoo – mas só porque é a lápis).

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1 Comentário

  • Responder Thaísa Tavares

    Sempre tentei seguir essa filosofia: jamais emprestar livros. Mas eu tenho o seguinte defeito: às vezes, quando numa mesa, alguém fala que gostaria de ler X livro (e eu tenho ele na minha estante) eu acabo oferecendo o meu precioso só pra fazer amizade. Eu e essa minha maldita necessidade de agradar as pessoas, argh. Enfim, geralmente as pessoas mudam de assunto, mas da ultima vez que eu fiz isso um volume de Harry Potter e o Cálice de Fogo do meu box se foi e está longe de mim há meses. Choro todos os dias de saudade, não vejo a hora de voltar a andar pra ir buscar.

    7 de Março de 2017 às 10:21
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