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A Girl Walks Home Alone at Night (2014)

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“Pode me dar dinheiro?”
“Eu não tenho dinheiro algum.”
“Com um carro desses, vai me dizer que não tem dinheiro?”
“Sabe quantos dias eu trabalhei para comprar esse carro? 2.191 dias.”
Nota mental: é a primeira vez da minha vida de criadora compulsiva de blogs em que eu pipoco de ideias para posts, mas me falta tempo para escrever e programar tudo o que quero. Não que eu esteja reclamando, minha vida está num ritmo excepcional, mas eu começo a entender o pensamento das pessoas que abriram mão de empregos e faculdades convencionais para se dedicarem exclusivamente a produzirem material para a internet – de qualquer forma, eu não me imagino fazendo isso, então aceitei o desafio duplo de tocar minha vida nesse ritmo louco E produzir conteúdo suficiente para o blog enquanto isso. Mas vamos ao post:
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Se algum dia você se meter numa discussão com pessoas que você precisa ou quer impressionar, seja para ganhar a simpatia delas ou para mostrar quem é que manda aqui, empine o nariz, sorria como quem sabe exatamente do que está falando, coloque uma das mãos no bolso e diga, com aquele tom de quem tentar disfarçar o esnobe com a simplicidade: “Eu sou um grande apreciador do cinema iraniano”. Agora, se a outra pessoa, por acaso, também for uma grande apreciadora do cinema iraniano, aí eu acho melhor que você realmente tenha visto pelo menos um desses filmes antes de entrar na discussão. Ou então, que tenha lido esse post até o final (hehe), ele talvez te ajude. Mas já vou adiantar que não vai ser fácil!
A Girl Walks Home Alone at Night me foi indicado como um filme de terror, e uma pesquisa rápida no Google já nos conta que se trata do primeiro western vampire movie já feito no cinema iraniano. Eu vi esse filme há pouco menos de um mês, e aí você me pergunta por que eu só estou fazendo essa resenha agora. Bem… A verdade é que só agora eu comecei a entender o filme.
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Minha primeira impressão realmente foi “o que diabos eu acabei de ver?”. O filme é bom? Eu não sabia dizer. A história faz sentido? Eu esperava sinceramente que sim. É um filme cult? Com certeza é. É um filme bonito? Meu amigo… Você não faz nem ideia. O filme é inteiro lento (um OUTRO NÍVEL de lento), com cenas muito longas, muitas das quais não possuem diálogo, contando apenas com a maneira como os personagens se olham ou se aproximam, e nem sempre isso significa que vai acontecer algo na cena. Muitas vezes aqueles dois minutos inteiros foram dedicados apenas à um personagem olhar para o outro, ou à Garota andando de skate de frente pra uma parede (cena muito boa, por sinal).
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Depois de muitas semanas mastigando a história do filme e convencendo namorado, amigos e qualquer um que passasse do lado na hora a ver esse filme, eu acho que finalmente consegui captar grande parte da proposta, e me convenci de que cada mínimo detalhe das cenas tem uma importância gigantesca – além do mais, o filme faz várias críticas que, apesar de sutis, são bastante fortes.

O filme é propositalmente em preto e branco, e o elenco é composto por não mais do que dez personagens relevantes. Se eu transcrever todos os diálogos do filme inteiro, há grandes chances de ficar menor do que esse post – acho que vocês pegaram a ideia “minimalista” da obra. Outra coisa interessante: todos os personagens representam estereótipos. Mais do que pessoas, eles são ideias, com exceção de Arash. Arash é o único que não é “o/a alguma coisa”. De resto, nós temos “A Garota”, “A Prostituta”, “O Drogado”, “A Princesa”, “O Traficante”, “O Menino” e “O Gato” (que é… bem… um gato – SPOILER DO BEM: o gato não morre e todo mundo gosta dele, então podem ver sem medo).

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Arash, o protagonista, é um rapaz jovem de traços iranianos marcantes, que logo na primeira cena é visto pegando um (O) gato e levando consigo (porque todo mundo ama O Gato) e colocando-o em seu carro, visivelmente novo. O primeiro diálogo do filme se estabelece algumas cenas depois, e é o quote que começou esse post, travado entre Arash e O Menino. Lendo assim, provavelmente não dá para perceber a importância do que ele fala, mas na cena seguinte você nota o quão bem pensado e bem amarrado o roteiro é, e que realmente cada mínimo detalhe do filme importa muito.
Arash trabalha para manter a si mesmo e ao pai, inválido e viciado em heroína, mas que não tem dinheiro para sustentar o próprio vício e acaba acumulando uma dívida imensa com O Traficante – grande o suficiente para ele se ver no direito de pegar o carro de Arash como pagamento. Outra coisa: a aparência d’O Traficante é cômica de tão caricaturada. Ele é ocidentalizado, mas da pior maneira possível. Seu comportamento é repulsivo, até a casa em que ele vive remete aos videoclipes de rap em que há dezenas de mulheres lindas de biquíni, homens com correntes de 20kg de ouro no pescoço e jogando dinheiro pra cima, com direito até a estátuas douradas e cabeças de caça enfeitando as paredes. Ele não trata mal só a Arash, como também a Prostituta algumas cenas depois, em que ele ressalta o como ela está se tornando incapaz de fazer seu trabalho por “estar ficando velha”.
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Arash, por sua vez, não deixa que o ocorrido com o carro o impeça de trabalhar e perseguir seu sonho de deixar a cidade (que, aliás, se chama “Bad City”, e é engraçado como colocar isso em texto me faz sentir como se todas as alegorias estivessem dançando na minha frente esse tempo todo e eu, bobona, tivesse demorado tanto para entender). Ele é jardineiro de uma mansão, onde mora “A Princesa”, filha de seus chefes. Ela, que está se recuperando de uma cirurgia plástica no nariz (e dias depois o Euclides me explicou que esse tipo de operação virou moda entre as jovens iranianas para afinar – ou “ocidentalizar” – o nariz, e esse tipo de prática é severamente criticado pelos mais conservadores), o chama para seu quarto, para que ele conserte a TV. Ele pede que ela o deixe sozinho no quarto, para que seus pais não a critiquem por ficar a sós com um homem, ao que ela responde de maneira bastante irônica. Além de consertar a TV, ele furta um par de brincos de brilhante da penteadeira, na esperança de que aquilo pague a dívida de seu pai. Esse é o único comportamento “duvidoso” de Arash o filme inteiro, e, aparentemente, não foi o suficiente para manchar seu espírito ou para merecer o julgamento d’A Garota. Falando nela…
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A Garota, assim como Arash, tem traços tipicamente iranianos, olhos grandes e absolutamente nenhuma expressão facial. Ela gosta de música (música BOA, a trilha sonora do filme é incrível) e usa um Xador – um véu típico da cultura islâmica que cobre a cabeça e o corpo, mas deixa o rosto de fora – aberto no corpo como uma capa. O único momento do filme em que ela usa maquiagem é quando quer atrair a atenção d’O Traficante, que a leva para casa. Uma vez na casa dele, descobrimos que A Garota é, na verdade, uma vampira que fez dele a sua primeira vítima (a sequência da cena é muito boa e ninguém sentiu saudade dele depois). Mas ela não tem todo aquele drama à lá Anne Rice em ser vampira, o que me faz pensar (na verdade, meio que joga na minha cara) que o vampirismo é só uma alegoria para representar a força dela, tanto como mulher tanto como indivíduo tanto quanto iraniana (filme nacionalista feminista, yey?). Essa sequência de cenas é seguida pelo primeiro (e rápido) encontro entre A Garota e Arash, que voltam a se encontrar milhares de vezes depois. O relacionamento deles dois flui de um jeito quase que mágico, principalmente porque ela mal pronuncia dez palavras o filme inteiro, e ainda assim eles parecem os melhores amigos. Arash é bem-vindo na casa dela, e ela aceita os brincos furtados como presente (já que não tinha sobrado muito do Traficante que se interessasse em recebe-los). E ela, por fim, acaba compartilhando o sonho dele de entrar no carro, colocar O Gato (grande, gordo e fofo) no colo, dar play em música boa e deixar Bad City para trás.

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Mas, antes disso, ela tem uma conversa bastante interessante com O Menino, em que ela diz que seele não for um bom garoto, ela irá tortura-lo de jeitos horríveis (com direito a dar os olhos dele pros cachorros comerem), e o avisa de que ela sempre estará por perto, e que saberá se algum dia ele for mau.
Fora isso, as duas outras vítimas d’A Garota são o pai de Arash, que mantinha um caso com A Prostituta e a tinha forçado a se drogar, e um mendigo que dormia na rua. A Garota é bastante compreensiva com A Prostituta, que confessa que tinha planos e guardava dinheiro para realiza-los, mas já não lembrava mais quais eram ou o que pretendia fazer com o dinheiro. A verdade é que ela vivia aquela vida há tanto tempo que não seria capaz de fazer diferente, e Bad City havia levado a melhor sobre ela, transformando-a numa parte da cidade degenerada.
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 Os “degenerados”, ou “parasitas sociais” são o único alvo de escolha da vampira. A única função do mendigo no filme é ser morto por ela, o que pode demonstrar certo extremismo no ponto de vista do filme. Em Bad City há também uma travesti (a gente ainda usa esse termo?) que, apesar de ter uma sequência de cenas solo, em que ela aparece dançando com um balão, não é vítima d’A Garota, e isso me deixou bastante indecisa quanto à posição da diretora quanto a homossexualidade em geral. Mas lembrando do peso nacionalista iraniano do filme, não seria nada muito chocante. De qualquer forma, eu reforço: isso é tudo interpretação minha, e se alguém interpretou de um jeito diferente, POR FAVOR me fale nos comentários, porque eu quero mesmo saber.
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Arash é a inocência (ou a decência) que resiste ao meio, ainda que a cidade tente corrompe-lo de todas as formas. Talvez A Garota tenha aceitado acompanha-lo por saber que, sem o devido auxílio, ele fatalmente acabaria se tornando parte de Bad City. A maneira como a relação deles evolui é bastante interessante de ver, é como se os dois simplesmente soubessem que deveriam se manter por perto, aquele tipo de amizade que ninguém nunca questiona. Já A Garota é uma vigilante, ela faz, com as próprias mãos, a justiça que a maioria das mulheres islâmicas gostaria de fazer, mas não pode. Ela, sozinha, representa o feminino de uma cultura inteira. Ela vê beleza no Ocidente, nas músicas que escuta, mas não deixa que as nossas práticas manchem a beleza e o respeito que ela tem pela própria cultura, e isso foi algo realmente bonito de se ver. Ela não tem medo de andar sozinha à noite, ainda que o meio à ameace tanto.
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Esse é um filme para ser visto de mente limpa, com paciência e sem preocupações. Na verdade, acho que é um filme bom de se ver mais de uma vez, porque a cada replay das cenas você descobre uma coisa nova. Não é um filme para ver quando você quer se divertir, mas é uma ótima pedida para quando você quiser pensar. E por abordar uma cultura completamente diferente da nossa (e que vê a nossa, de certa forma, até como “degenerada”), acaba sendo um ponto de vista inédito pra muita gente. Pra mim, pelo menos, foi, e eu não me arrependo de nada.
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