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Crônicas

[642 Things to Write About] #45 – Uma peça de roupa que você guardou como lembrança.

(Há um tempo eu estava reclamando pro Euclides sobre a frustração que era estar em bloqueio criativo e não conseguir mais produzir conteúdo original de ficção. Felizmente, o projeto 642 Coisas Sobre as Quais Escrever, ou 642 Things to Write About, no original, veio em minha salvação).

Reprodução

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Acho engraçado como eu continuo achando as suas coisas pela casa, mesmo fazendo meses que você foi embora.

Sete meses, vinte e seis dias, umas doze horas e uns quebrados. Não dá pra ser muito precisa, principalmente porque eu estava bêbada a ponto de um quase coma naquela noite. Você foi embora de madrugada, isso eu lembro. Eu gostaria de dizer que estava chovendo para ser mais dramático, mas não chovia há tipo um mês naquela época, então ninguém ia acreditar.

O que eu achei dessa vez foi uma camiseta.

Uma camiseta velha e desbotada, um cinza que um dia foi preto, com a estampa toda rachada que mal dava pra ler o nome da banda estúpida e desconhecida que você vivia escutando, dançando e cantando pelo apartamento enquanto eu tentava trabalhar.

Cacete, como você foi esquecer essa camiseta aqui? Era sua camiseta favorita, eu tinha que socar na secadora imediatamente depois de tirar da máquina porque era a roupa que você curtia usar dentro de casa (isso depois de eu ter te proibido de sair com esse trapo).

Isso me irritava tanto na época, mas pensando agora eu acho até engraçado. Eu chegava em casa do trabalho e você tava lá, de calcinha e com a porra dessa camiseta, com tinta até na testa pintando uma das suas telas que nunca trouxeram um centavo pra dentro de casa. Se a camiseta estivesse lavando, então você estava só de calcinha, mas não tem ninguém reclamando aqui. Eu sempre dizia que o dia em que você resolvesse fazer um autorretrato dos seus peitos nós ficaríamos ricas, mas você nunca me ouviu.  Quer dizer, eu reclamava quando a calcinha era minha, mas isso é outra história. Porra, você sempre foi tão distraída…

E você sempre reclamava que eu falava palavrão demais. E que eu bebia demais, mas você sempre bebia junto comigo. E que eu trabalhava demais, mas alguém tinha que pagar as contas e bancar a porcaria do seu material de pintura, e a droga do vinho super específico que você gostava de beber quando ia pintar, e o baseado que a gente dividia antes de dormir. Acho que alguém com tanta coisa nas costas tem o direito de falar os palavrões que quiser.

Inclusive, eu tô aqui, segurando a porra da tua camiseta velha e repetindo mentalmente todos os palavrões que eu conheço, porque eu tenho certeza que você deixou essa merda aqui de propósito.

Eu odeio admitir que eu sinto a sua falta. Há sete meses que você saiu daqui batendo a porta e mandando tudo à merda, numa encenação patética de que estava cansada da minha personalidade, de que eu estava chegando em casa tarde toda noite e de que só pensava no trabalho do escritório. Aí dois dias depois apareceu um cara na minha porta pra pegar as coisas que você tinha deixado, as telas e tudo o mais. Uma semana depois, quem apareceu foi você. Você foi cretina a ponto de usar a chave que eu te dei e vir pra cá sem me avisar, num horário em que você achou que eu estaria trabalhando. A verdade é que eu estava de licença naquela época, não que tivesse sido ideia minha. O meu diretor simplesmente disse que eu não estava apta para trabalhar e me deu uns negócios pra fazer em casa. Eu não queria que você tivesse me encontrado bêbada, e você nem pareceu surpresa…

Eu lembro de você tirando suas roupas de dentro do armário, eu lembro de ter perguntado quem era o cara que veio pegar as suas telas. Você disse que era um cara que ia conseguir fazer sua carreira deslanchar, que era alguém legal. Eu perguntei há quanto tempo você estava fodendo com ele. Eu lembro de você dizendo que pelo menos ele estava ali quando você tinha precisado, e do tapa que eu virei na sua cara… Aí eu não lembro de mais nada. Eu acordei e todas as suas coisas tinham sumido junto com você, menos um cacareco aqui e ali, e a porra dessa camiseta.

Eu deveria jogar esse trapo no lixo, sabia? Me livrar do último resquício de você pela casa e na minha vida. Eu sei que você não vendeu uma única tela desde que saiu de casa, aliás eu não sei nem se você continua pintando. Mas a vida sem conta pra pagar, dormindo e transando na caçamba de uma caminhonete e acordando cada dia num lugar diferente parece combinar mais com você do que eu e o meu apartamento. Eu percebi em uma das fotos que você comprou uma camiseta nova, igual à essa.

Acho que o que mais me irrita nisso tudo nem é o fato de você ter deixado esse trapo, que sempre foi um lixo pra mim e agora eu imagino que seja um lixo pra você, aqui na minha casa. É o fato de você ter me trocado por um cara. Acho que eu e essa camiseta valemos a mesma coisa pra você agora.

Eu venho bebendo menos de uns tempos pra cá, mas isso só depois de eu ter descoberto uma ligação de 14 minutos pro seu celular da qual eu absolutamente não me lembro. Em compensação, eu venho fumando muito mais. Você odiava tanto o cheiro dos meus cigarros que eu decidi só fumar no escritório, e ainda assim você reclamava do cheiro da minha roupa.

E aí você arrancava o meu blazer, eventualmente estourava uns botões da minha camisa e a gente transava no chão da sala.

Ah, caralho…

Eu botei a sua camiseta estúpida na máquina de lavar. Ela vai estar aqui, caso um dia você resolva pegar de volta. Eu sei que isso é improvável, essa camiseta está tão gasta quanto o nosso relacionamento ficou nos seis meses que você se mudou pra cá, e você tem uma nova agora…

Eu também comecei a ouvir essa banda que você gostava tanto, nem é tão ruim assim, não sei por que eu implicava…

Jesus Cristo, eu preciso de um cigarro. Acho que vou comprar um maço na padaria, aproveitar e ver se aquele armazém ainda estava com o vinho que você gostava na promoção. Vou guardar uma taça pra você, sabe? Caso você venha pegar a camiseta e decida ficar pra conversar um pouco.

A gente vai ficar aqui te esperando, eu e essa camiseta ridícula.

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8 Comentários

  • Responder Mariana Pedroso

    Eu poderia dizer muitas coisas, mas vou me limitar a dizer que amei esse texto. Simples assim. <3

    29 de outubro de 2015 às 03:39
  • Responder Mila

    Que realista e triste! Você escreve muito bem!
    Bjs

    http://achadosdamila.blogspot.com.br/

    29 de outubro de 2015 às 03:39
  • Responder Cecilia Mesquita

    Eu e essa camisa ridicula ♥
    No fundo eu amei o texto apesar de ser bem trágico

    http://gotasdecaffe.blogspot.com.br/
    https://www.facebook.com/GotasdeCafeblog/

    30 de outubro de 2015 às 03:29
  • Responder Marcela Fabreti de Oliveira

    Cara, não tem jeito, eu adoro uma tragédia, HAHAHAH. Ainda vou sentar a bunda na cadeira e arrancar um final feliz de alguma coisa, espera só.

    30 de outubro de 2015 às 21:28
  • Responder Marcela Fabreti de Oliveira

    Obrigada, Mila! <3 É ótimo conseguir voltar a escrever e ver gente curtindo :*

    30 de outubro de 2015 às 21:28
  • Responder Marcela Fabreti de Oliveira

    Vem cá, me abraça.

    30 de outubro de 2015 às 21:29
  • Responder Clayci

    Ja me peguei com tantas lembranças por aqui.. Lembro que era de tudo, camiseta.. cartinhas, ursinhos.. Pessoas que me machucaram, mas que eu sentia necessidade de lembrar =/
    Finalmente depois de tanto tempo, consegui me livrar de tudo ^^

    50% dos meus problemas se resolveram com água e os 50% um fósforo rs
    Beijos

    http://www.saidaminhalente.com

    31 de outubro de 2015 às 18:23
  • Responder Marcela Fabreti de Oliveira

    Das poucas lembranças de outras pessoas que já encontrei pelas minhas coisas… Boa parte delas eu vendi. Confesso. Fui nos brechós da vida e ganhei trintão.

    4 de novembro de 2015 às 02:59
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