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Crônicas

Crise de Ansiedade

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Reprodução

Um dia eu acordei e pensei que tinha algo errado.
A pálpebra direita tremia e não parecia ter hora para parar. Ficava tremendo e repuxando, cutucando, sempre me lembrando de que
Alguma coisa. Estava. Errada.
Mas paciência. Calma. Respira fundo que a vida ajeita.
Mas a vida não ajeitava a vida e não ia ajeitar mais nada. Mas ainda assim, respira. Respira fundo. Respira e inspira devagar por 30 segundos e repete.
Mas respirar também não ajeitou. Fechar os olhos também não. Voltar a dormir também não.

Depois de uma noite mal dormida eu acordei e pensei que ia morrer.
A pálpebra continuava tremendo e o coração estava acelerando. E batia rápido e mais rápido e mais rápido, e aí eu colocava a mão no peito pra sentir e não tinha nada rápido. Nem acelerando. Nem morrendo.
Mas a sensação não passou e a tremedeira também não, e eu continuei achando que estava morrendo. E a ideia de estar morrendo quase me matou, porque o corpo começou a doer e respirar ficou difícil, e naquela hora eu só conseguia pensar que tinha alguma coisa e r r a d a.
Um derrame, eu pensei. Ou um enfarte. Ou uma crise nervosa. Vou cair estatelada e dura no chão, tremendo e babando, e coitada da menina da cama ao lado que vai ter que me ajudar.

Mas eu não morri, nem caí, nem babei, e a menina da cama ao lado dormiu muito melhor que eu.
E no dia seguinte o diabo do olho continuava tremendo.

É muscular, disseram, é um sintoma de estresse. Você está estressada, só isso.
Estressada.
Estressada.
Estressada.
Que diabo uma menina que nem vinte anos tem consegue ficar assim tão estressada?
E como eu desestresso?
Diminua a cafeína.
Eu não bebo café.
Fique menos no computador.
Eu não sei se isso é possível.
Corte leituras pesadas.
Você não sabe com quem está falando.

Se não é estresse é ansiedade, é medo, é coisa da tua cabeça. Você só precisa relaxar, é só isso, nada de outro mundo.

Porra, mas é tanta ansiedade assim? Caramba. Não é como se eu planejasse mais do que vivesse. Não é como se eu já tivesse imaginado mil e duas possibilidades para cada decisão que eu penso em fazer e, curiosamente, todas essas possibilidades dessem errado na minha cabeça. Não é como se eu me dedicasse a resolver as coisas erradas que eu imaginei que talvez quem sabe um dia pudessem acontecer. Não é como se eu, ao invés de dormir, imaginasse as possibilidades de um diálogo e armazenasse dentro de mim todas as possibilidades de assunto e de resposta, para que ninguém me achasse burra, para que eu fosse engraçada na medida. Não é como se eu tivesse frases prontas. Roteiros prontos. Toda uma vida pronta e imaginada só esperando para acontecer. Não é como se eu guardasse tudo isso numa gaveta imaginária bem ao lado da frustração de nada disso acontecer. Nunca. Nunca. Nunquinha acontecer. Não é como se eu perdesse horas de sono me lamentando sobre as coisas que eu imaginei não acontecerem, sobre eu ter perdido uma oportunidade imaginária de dizer algo imaginado numa situação igualmente imaginária. Não é como se eu tivesse medo dos monstros que eu mesma fui inventando no decorrer das noites, dos dias, dos minutos entre uma ocorrência e outra do meu dia de verdade. Não é como se eu tivesse mais hipóteses do que fatos, mais roteiros do que cenas gravadas, mais situações irreais do que reais. Não é como se eu travasse quando a cena acontece de verdade.

Não é como se eu fosse ansiosa de verdade.

Doutor, acho que tem alguma coisa errada.

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