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Crônicas

Atração Principal

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Era um circo modesto, com seus furos na lona e seus palhaços de vícios escondidos atrás da maquiagem, suas bailarinas magérrimas e seus animais bem treinados. Um circo modesto que atraía um respeitável e modesto público que simplesmente procurava algo que não encontraria no dia-a-dia, pagando por isso um precinho camarada e se amontoando em bancos improvisados enquanto as crianças clamavam por doces e por pelúcias do leão. Ah sim, esqueci-me do leão, ele era um dos animais bem treinados do circo. Ele e seu treinador talvez fossem a atração principal do espetáculo (pois eu duvido que você encontre um leão no seu dia-a-dia). O domador bem vestido e bem penteado estalava seu chicote contra o ar e o leão, grande, majestoso (e magro) obedecia aos comandos de seu mestre. Sentava, rugia, até dava a pata para o delírio das crianças. O domador o afagava, abraçava, o mimava como um gato. As crianças aplaudiam, as moças suspiravam e um ou outro pai mais sensato comentava sobre os riscos a que o ousado homem se sujeitava. Era um leão, ora bolas! Não dá pra confiar num bicho desses…

Pois houve um dia (minto: era já tarde danoite, a apresentação que encerraria o dia de espetáculo), em que o público não era assim tão respeitável. Não se sabe ao certo o que aconteceu, talvez uma criança mal educada, talvez um jovem bêbado querendo impressionar a namorada, ninguém viu de onde surgiu a lata que atingiu o focinho do leão. Mas o leão não estava interessado em encontrar o responsável e o rugido saiu mais alto do que o usual. De repente, silêncio. A surpresa do domador era evidente, e a surpresa logo vira medo, e o medo que o domador sentia ao estalar o chicote com violência logo se tornou a raiva do leão, buscando neutralizar a ameaça. Ele rosnava, rugia e tentava pegar o chicote com a pata monstruosa, e todos puderam ver que o treinador não estava treinado para um momento como aquele. De repente ele não era másculo ou corajoso, era um homem colocado contra a parede por um leão. Um homem pequeno, assustado e com o terno desbotado, o chicote tremendo na mão direita.
Uma nova chicotada movida pelo desespero, dessa vez direto contra o couro duro e de pelos dourados da grande e magra criatura. Um pulo. Um grito. Silêncio. A plateia finalmente conseguiu o que queria, pois eu duvido que você veja com frequência um leão abocanhar seu domador há poucos metros de distância de você. Os mais sensíveis gritaram e correram para fora ao ver que o sangue manchava a palha do picadeiro, mas não antes de todos pensarem que “não, não está acontecendo de verdade. Essas coisas só acontecem nos filmes, ou com as outras pessoas. O leão é bem treinado, isso provavelmente é só mais um truque”. Somente quando os outros funcionários do circo invadiram o picadeiro para tentar controlar a criatura é que as pessoas perceberam que se tratava da vida real. Algumas correram, outras ficaram e precisaram ser expulsas pelos palhaços que, de repente, não pareciam divertidos. As bailarinas gêmeas choravam, o mestre de cerimônias limpava o suor e a maquiagem do rosto com um lenço amarrotado, vendo passar diante de seus olhos toda a sua história no mundo do entretenimento – e sendo encerrada de maneira assim tão trágica. Enquanto isso, na plateia, o nada respeitável público remanescente filmava com as câmeras e os olhos brilhantes, estupefatos, indo do leão com a boca ensanguentada para o domador mordido e morto no chão. Eles falariam daquilo pelo resto das vidas, a cada novo amigo que fizessem, a cada jantar de família, sempre que a conversa desse entrada para o assunto. Afinal, você de repente parece interessante se disser “eu já vi um cara morrer na minha frente, atacado por um leão!”, ou então “eu tenho pavor de circos, desde que vi o leão matar o domador quando era pequena, não consigo entrar num circo sem me sentir mal”.

Essa é uma das histórias que logo você percebe que já contou para todos os seus amigos – e torce para que eles tenham esquecido, para que você possa contar de novo, de um jeito mais dramático.

Não houve apresentação no dia seguinte; ainda assim, a entrada do circo nunca esteve tão cheia. Todos queriam ter um vislumbre do cenário da morte do domador.

O leão foi encaminhado para um zoológico onde é bem alimentado, o circo foi fechado e seus artistas seguiram rumos diferentes (talvez você encontre as bailarinas gêmeas atrás da bancada de algum bar de alguma boate durante a noite, mande lembranças por mim, se por acaso encontrá-las). E o nada respeitável público retomou seu dia-a-dia monótono, sempre procurando novo desastre para comentar, afinal, a atração principal da vida vazia de hoje em dia é sempre a morte das outras pessoas (e fica melhor ainda, se elas morrerem atacadas por um leão).

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