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    O Ladrão de Crianças, de Gerald Brom

    Acho que todo mundo aqui conhece pelo menos um pouco da história de Peter Pan. O menino que jamais queria crescer e que levava crianças como ele para a maravilhosa Terra do Nunca, onde eles nadavam com sereias e lutavam contra piratas é conhecido mesmo de quem nunca assistiu o desenho da Disney.

    É em cima dessa história que Brom, um ilustrador especializado em fantasia gótica, sendo um dos vários artistas por trás das cartas de Magic: the Gathering trabalha em seu romance. No entanto, O Ladrão de Crianças não tem nada da inocência do clássico da Disney e, misturando os meninos perdidos com diversas outras lendas do folclore finlandês, irlandês, celta, escocês e vários outros, Brom pinta a magia com cores escuras, sofrimento e, sobretudo, sangue.

    Aqui, a Terra do Nunca é substituída por Avalon, com todas as suas fadas, elfos e criaturas fantásticas, isoladas do resto do mundo desde a traição do Rei Arthur. Esqueça a segunda estrela à direita, pois Avalon não tem estrelas. O cenário de uma Londres antiga e agradável torna-se a contemporânea Nova York – seu lado mais deturpado. Por onde olhamos há crianças perdidas: vítimas de pais abusivos, da pobreza, das drogas. Crianças de todas as idades que não pensariam duas vezes em frente a uma oportunidade de fugir dali para sempre. É dessas crianças que Peter precisa.

    Peter, de cabelos ruivos desgrenhados, sardas no rosto, olhos dourados e orelhas pontudas, ludibria crianças desesperadas com meias verdades sobre um lugar maravilhoso, onde se permanece jovem para sempre, lutando contra piratas (aqui chamados de Comedores de Carne) e monstros, sob a eterna proteção de uma Névoa mágica e opressiva, criada pelo poder de Modron, a Dama do Lago e Rainha de Avalon, uma das três divindades filhas do deus Avallach, que há muito abandonou sua terra.

    Ainda que a história gire em torno de um jovem chamado Nick, que deixa a família para trás depois de roubar um traficante de drogas por vingança, o verdadeiro protagonista é Peter, que não conheceu nada além de sofrimento e da infinita maldade do homem até encontrar em Modron uma protetora.

    O livro cobra seu preço do leitor, emocionalmente. Não existe alívio cômico ou espaço para respirar fundo. A violência é extremamente gráfica, e tudo ao redor é cruel. Brom reuniu o pior de todas as coisas em um único livro, e o resultado é, ao mesmo tempo, desesperador e incrível. Para o autor, não apenas o homem é um ser maldoso. O mundo é, naturalmente, um lugar ruim, e todos os personagens sofrem por isso igualmente.

    A ideia de Brom de transformar homens em monstros está bastante clara desde o início. Quando crescemos, perdemos a noção da magia que nos cerca, perdemos nossa própria magia e nos tornamos vítimas da crueldade natural do mundo. A partir daí, passamos a, ativamente, tentar assassinar a magia ao nosso redor. No entanto, é doloroso admitir que este livro não possui vilões. Todos os personagens são igualmente maus, e sofreram em igual proporção. Todas as atitudes são tomadas por motivos nobres, mas, sendo o mundo um lugar mau, um final feliz beira o impossível.

    Avalon em nada lembra a Terra do Nunca: não há sereias no mar, eas crianças não voam ao lado das fadas – que existem, mas são serezinhos que passam o dia infernizando a vida alheia. A presença opressiva dos homens tem matado Avalon aos poucos, e, conforme a magia atua para transformá-los em Comedores de Carne, a terra fica ainda mais fraca, de forma que quase não há o que comer.

    As criaturas mágicas também estão desaparecendo, todas morrendo aos poucos. Apenas os elfos resistem, comandados por um herdeiro insano e mimado, assombrado pela morte do próprio pai, O Ser de Chifres, outra das três divindades de Avalon. Com a divindade da guerra morta em combate e com Modron à beira da loucura desde a morte de seu filho, Ginny Greenteeth, a bruxa, última dos filhos de Avallach, se recolhe em seu território repleto de criaturas venenosas, e não demonstra piedade por quem invadir seus pântanos.

    Peter, no entanto, que não é nem homem e nem elfo, parece ser a única criatura de Avalon que ainda nutre esperanças, recusando-se a ver sua terra morrer sem luta. Ele e seus Diabos lutaram – e perderam – ao lado do Ser de Chifres, mas nada o impedirá de continuar lutando.

    Muita gente morre em O Ladrão de Crianças. Na verdade, existe uma grande chance de que todos os personagens que cruzem o seu caminho acabem morrendo de uma forma horrível. Brom narra batalhas (e a própria vida) com um realismo cruel e impiedoso, então eu realmente recomendo que você não se apegue a ninguém. Eu me apeguei, e precisei de algumas semanas para conseguir digerir a história por completo. Através das palavras e desenhos do autor, a vida não é mais do que um sopro amargo.

    Minha primeira impressão, logo ao final da leitura, foi a de não ter gostado. No entanto, o tempo passava e ela continuava na minha cabeça, eu continuava analisando cada detalhe das ilustrações, e adquiri um curioso gosto por músicas inspiradas no folclore europeu, que sempre me lembravam de uma característica ou outra da história. Nenhum livro ruim faz isso com o leitor.

    Achei interessante como a inocência das crianças permanece. Todas elas sofreram todos os tipos de abuso e, mesmo assim, não reproduzem o abuso entre si. Suas atitudes não possuem malícia, ainda que Avalon seja um ambiente tão agressivo quanto o lar que eles abandonaram. É doloroso perceber que, apesar de tudo, todos eles ainda se comportam como crianças.

    Peter, por sua vez, sofre por jamais ter sido inocente. Ele foi chamado de demônio pela própria família, que o abandonou para morrer. E é chamado de demônio pelos Comedores de Carne, que nada são além de colonos, também expulsos dos próprios lares por conta do extremismo religioso (esse post aqui conta um caso parecido). Ele observa as crianças que atrairá para sua armadilha, e inveja terrivelmente a pureza de alma de todas elas, que sobrevive mesmo em meio a tanta corrupção. Este protagonista em nada lembra o garoto inconsequente e serelepe dos clássicos. A vida de Peter não é uma aventura, e sim uma guerra que ele luta sozinho. Não há muito espaço para brincadeiras com fadas em uma vida como essa.

    O Ladrão de Crianças é uma leitura extremamente intensa, que eu infelizmente não posso recomendar sem ressalvas. É impossível não se sentir incomodado durante a leitura, mas eu achei este um preço que vale a pena ser pago em troca da história. A narrativa, no entanto, não é perfeita. Ficamos sem saber o que acontece com os poucos personagens que sobrevivem, e o livro possui uma quantidade aterradora de erros de gramática e concordância (os tradutores realmente pensam que “Os Diabos”, nome pelo qual os meninos perdidos atendem, se refere à um único corpo, então o livro é cheio de “Os Diabos foi, os Diabos vai”, e outros erros bastante crassos). De qualquer forma, depois que a história finalmente é digerida, eu não tive arrependimentos. Brom não me transportou para um mundo do qual eu gostaria de fazer parte, mas me apresentou à personagens por quem eu tenho um grande respeito. E eu me senti honrada em conhecê-los.

    Reprodução / Brom

    Nome: O Ladrão de Crianças (The Child Thief)
    Autor: Gerald Brom
    Tradução para o português: Santiago Nazarian
    Editora: Benvirá (selo da Editora Saraiva)
    Ano: 2014
    ISBN: 978-85-02-21935-9

    Nota: 7,0/10,0

    Sinopse: Gerald Brom traz a clássica lenda do Peter Pan para os tempos atuais adicionando grandes doses de sadismo e fantasia. Aqui, Peter é um garoto meio humano, meio qualquer outra coisa, que sequestra jovens pelas ruas de Nova York prometendo-lhes um paraíso sem adultos ou quaisquer regras. Mas, na realidade, eles nem imaginam que quem os esperam são os monstros e os mistérios da ilha de Avalon, onde é preciso ter muito sangue frio para sobreviver.

    Com ilustrações do próprio autor, O ladrão de crianças é um romance de fantasia obscura que ao mesmo tempo encanta e assombra aqueles que seguem Peter em sua viagem sangrenta e delirante.

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